ZiNnE 2 em 1

Novidade no Zinne Cult, pessoal!

Como dois dos nossos colunistas escreveram sobre assuntos correlatos, resolvemos publicar os textos ao mesmo tempo. Foi uma feliz coincidência, eu diria.

Então, vamos a eles. Boa leitura!


Saudades de Léo Batista e Cid Moreira

Por Celim

 

Assisti um filme essa semana com Russel Crowe, que não lembro agora o nome. Seu personagem em determinado momento diz que, a exemplo dos humoristas, na vida nós temos que ter o “timing” .  Esse termo em inglês refere-se ao momento certo e preciso de agir. A vida parece nos oferecer oportunidades únicas e se bobearmos a oportunidade pode escapar e nunca mais voltar. Os humoristas por exemplo, muitos deles tem essa qualidade, ou seja, pressentem o momento certo de falar e assim a coisa fica engraçada. É como o bote da Leoa na pobre zebrinha, precisa ser eficiente e eficaz. Não é algo simples e talvez não seja pra qualquer um.

Mas porque estou falando isso? Vou chegar lá.

Espanta-me o declínio nos últimos anos de programas de televisão que há algum tempo atrás possuíam um padrão de qualidade mais apurado. Falar de tv no Brasil, infelizmente, ainda é sinônimo de falar a respeito da Rede Globo de televisão, já que a audiência é ainda muito superior às demais emissoras. Cito principalmente o fantástico, que ultimamente tem se superado na probreza de conteúdo e criatividade. Podem me chamar de saudosista, mas a falta que fazem os jornalistas que saíram em debandada da Globo como Paulo Henrique Amorim, Glória Maria, Roberto Cabrini, Joemir Betting entre outros, muito contribuiu para isso. Glória Maria e Pedro Bial ainda seguravam a peteca. Já o Zeca Camargo e a Patrícia Poeta são bons apresentadores, o problema não são eles, mas sim a quantidade de matérias muitas vezes supérfluas, rasas em profundidade jornalística, que já não são capazes atrair os espectadores, que assim como eu, na primeira oportunidade mudam de canal. No meu caso às vezes nem me lembro de voltar para lá e ver se tem ainda alguma coisa que interesse assistir. Nesse nicho, palmas ao Domingo espetacular da Rede Record que têm melhorado muito e já é um programa bem melhor que o fantástico, inclusive com a veia investigativa e denunciativa, essenciais à pratica do bom jornalismo. Imparcialidade é claro que não existe, não é disso que estou falando.

Soma-se a isso a nova moda da equipe de esportes da globo, que tem me causado arrepios. O que no início parecia moderninho, simpático, descolado, inovador, engraçado, já começou a dar sinais de desgaste. Capitaneados por Tadeu Schimit e que, justiça seja feita, conta com muita gente boa de serviço na equipe, inclusive ele, mas que pecam ao tentar, a todo custo, fazer graça utilizando de artifícios bizonhos como o João Sorrisão, entres outras coisas “sem sal”. Todos sabem do poder de influência exercido pela mídia, mas isso já extrapola os limites da sensatez. O que quero dizer é que não é preciso um modelo, um só formato que todos  precisam seguir para que se possa fazer um trabalho bem feito. Vide os canais ESPN brasileiros que conseguem na média apresentar seus programas com qualidade, boa dose de humor de forma espontânea e com excelência e responsabilidade jornalística. Tudo que é em excesso torna-se ruim. Fazer graça não á para qualquer um, é preciso ter o timing, ou é ou não é, não tem jeito. É como colocar-me para contar piadas, não vai funciona simplesmente, afinal cada “macaco no seu glaho”, já diz o ditado. O Tadeu por exemplo é bom nisso e o faz com naturalidade, mas outros tentando fazer o mesmo, como o Escobar por exemplo, já soa forçado.

E os jogadores de futebol comemorando os gols todos do mesmo jeito? Coisa triste. Isso não pode ser bom. Somos diferentes, isso é uma afronta à liberdade criativa. O gol é explosão de alegria e as comemorações não podem ser padronizadas.  Claro que muitos jogadores seguem a onda, a moda, mas todos já é demais. Imagine todos ouvindo as mesmas músicas que são sucesso, lendos os livros da moda, usando as roupas “da hora”, assistindo os mesmos programas. A mídia quer empurrar tudo isso goela abaixo. Outra grande “babaquice” ao meu ver é o tal do “inacreditável futebol clube”. Querem agora que o jogador obrigue-se a colocar a camisa do referido clube, como se aquilo fosse uma aceitação pessoal do próprios jogadores de que cometeram uma bizonhice. Até aí ainda é aceitável. O que não dá é ficar fazendo piadinha e exposição dos jogadores que não gostaram da brincadeira. É um direito deles não gostar disso e não querer participar, ou não é? Bem disse o Louco Abreu, atacante do Botafogo, que isso é coisa que inventaram para desmerecer os jogadores. Enfim, gosto é gosto, eu não aprovo, engula quem quiser, afinal como já bem disse Tom Zé “A cultura de massa é um saco de gato”.

Saudades de Léo Batista e Cid Moreira, esses sim “são os caras!”

Marcelo Rocha (Celim) é Administrador, apreciador de bons livros e boa música, moderador e colunista eventual do Zinne Cult


O Jogador e o boneco inflável

Por Francisco Fernandes

A atual temporada do Campeonato Brasileiro de Futebol não está interessante. Pelo menos para o torcedor mineiro. Rodada após rodada, atleticanos, americanos e cruzeirenses veem seus respectivos clubes cada vez mais próximos da Série B. Outra característica negativa do presente certame é o baixo nível técnico dos jogadores, o que vem a ser consequência direta do grande fluxo de futebolistas brasileiros para clubes do exterior.

Entretanto, apesar dos problemas em campo, fora das quatro linhas dois personagens têm chamado a atenção: o boneco inflável João Sorrisão; e Loco Abreu, atacante uruguaio do Botafogo Futebol e Regatas.

Vamos ao primeiro personagem. João Sorrisão foi criado para acompanhar a música homônima (interpretada pelo grupo “Os Havaianos”)exibida durante o programa Esporte Espetacular, da Rede Globo de Televisão. A letra da música (de gosto duvidoso) reflete a decadência do mainstream musical no Brasil. Não obstante, o programa lançou uma campanha para os atletas dos times que disputam a Série A do futebol brasileiro: o jogador que fizer um gol e imitar (eufemismo para adestramento) o João Sorrisão, ganha um boneco do personagem.

Dito e feito. Vários jogadores, mimeticamente, passaram a adotar a escalafobética coreografia ao comemorar seus tentos. Obviamente, não se trata de nenhuma novidade, visto que boa parte da população brasileira está “acostumada” a ser manipulada pelos meios de comunicação de massa.

“Ter opinião é tabu”

Por outro lado, Sebastián “Loco” Abreu comprova que ainda existe “vida inteligente” no cenário esportivo. O artilheiro uruguaio, que tem curso superior (algo raríssimo entre os jogadores brasileiros, mas comum para atletas de outras nacionalidades), tem se destacado pelas entrevistas polêmicas. Em uma delas, ao ser questionado se participaria do quadro “Inacreditável Futebol Clube”(exibido no Fantástico) por ter perdido um “gol feito” na partida entre Botafogo e São Paulo, Loco foi enfático: “Realmente, o `Inacreditável Futebol Clube´ é uma bobagem que vocês têm para sacanear o jogador, mas só quem está lá dentro sabe como é difícil jogar futebol.”

Evidentemente, podemos concordar ou não com esta afirmação. Entretanto, poucos indivíduos têm a coragem suficiente para criticar publicamente a poderosa emissora da família Marinho. Após as declarações de Abreu, não faltaram comentários odiosos à atitude do centroavante botafoguense na imprensa especializada e nas redes sociais da internet. Em um meio acostumado a padronizações e a frases clichês em entrevistas, como é o mundo do futebol, ter “opinião própria” ainda causa certo estranhamento.

Infelizmente, essa postura passiva não impera apenas nos bastidores do secular esporte bretão. No Brasil, a maioria da população ainda prefere ser guiada intelectualmente por pensamentos metafísicos e alheios (atitude que Nietzsche qualificava como “instinto de rebanho”), a ter uma postura crítica e racional frente à realidade. Lembrando as palavras do cantor e compositor Lobão, em entrevista a um programa do Record News, “no país da fofoca, ter opinião é tabu”.

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[Francisco Fernandes Ladeira é especialista em Ciências Humanas, Brasil: Estado e Sociedade pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) e professor de História e Geografia]

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