A Intentona de Escorel

Na sessão “Extras” do DVD “35, O Assalto ao Poder” (2002) há uma “Entrevista com o Diretor” do filme documentário, Eduardo Escorel. Além de esclarecimentos sobre a concepção e a produção do filme, o diretor apresenta uma análise do evento histórico que se propôs a narrar através da película: o levante comunista de 1935 no Brasil. Escorel, no trecho intitulado “O Projeto Comunista no Brasil” (Tempo 07:30), constata que há uma “defasagem” entre o propósito insurrecional comunista brasileiro e a política assumida por Stálin publicamente desde a década de 20, a do “socialismo em um único país”. Se o “Homem de Aço” afirmava que a revolução é uma idéia “tragicômica”, então, conceber um projeto de “revolução no Brasil” apoiado por Moscou, pensa Escorel, “é no mínimo discutível” – mesmo com a presença, adverte ele, de representantes do Komintern no país.

A tese defendida por Escorel é um completo equívoco. Se não houve uma grave falha na pesquisa para a composição do documentário, o tropeço do diretor se deve à sua incapacidade de compreender o grande estrategista revolucionário, Stálin. O “Tio Josef” não tinha debaixo das mangas apenas a “tática insurrecional”. Se publicamente ele restringia a revolução socialista às fronteiras do território soviético, simultaneamente, fora dos holofotes fomentava a revolução pelo mundo valendo-se de outras estratégias: instrumentalizando os movimentos “nacionalistas” ou promovendo a revolução “cultural” – esta última que tinha, entre outros canais, a Escola de Frankfurt e a ofensiva cultural no território norte-americano.

Escorel, mesmo sem conhecer, ou sem compreender, totalmente o arsenal estratégico stalinista, poderia ter livrado a sua análise histórica do equívoco caso tivesse valorizado uma fonte presente no seu próprio documentário: William Waack. O jornalista realizou uma vasta pesquisa nos Arquivos de Moscou para narrar o levante comunista de 35 no Brasil. O resultado deste trabalho foi o livro “Camaradas”, publicado em 1993. Nele Waack descreve minuciosamente – apoiado em documentos de fonte primária – os fatos e eventos daquele episódio da história nacional, e também os objetivos do Komintern, que coordenava e financiava a grande operação sul-americana. Preparada desde 1933, esta operação estava sob os cuidados de uma comissão especial, a “Comissão para a América do Sul” (p. 56). Porém, a sólida fundamentação documental fornecida por Waack não fora suficiente para convencer Escorel.

Entre vários outros registros, um telegrama do EKKI – Comitê executivo da Internacional Comunista – para o Partido Comunista Brasileiro fornece uma prova definitiva sobre o envolvimento de Moscou na insurreição de 35:

Questão da ação (o levante) geral decidam vocês mesmos quando acharem necessário. Assegurem apoio à ação do Exército pelo movimento operário e camponês. Tomem todas as medidas contra prisão de Prestes. Enviamos 25 mil por telégrafo. Mantenham-nos informados do rumo dos acontecimentos. (WAACK, 1993, p. 203. Nota 26. Secretariado do EKKI para o Bureau Sul-Americano, 27/11/35, Arquivo Histórico, 495.184.54, pp. 76 e 84).

Para Waack este talvez seja o único documento escrito de uma decisão elaborada no exterior, por uma organização controlada por potência estrangeira, que orienta o desencadeamento de uma operação militar para derrubar o governo brasileiro, com o qual não estava em guerra (p. 203). Acontece que, a julgar por suas palavras, Escorel não reconhece o documento acima transcrito, pois sustenta que a idéia de uma “revolução internacional” no Brasil é “no mínimo discutível”. O diretor pensa que o levante insurrecional comunista no Brasil foi super-valorizado, e serviu, posteriormente, como instrumento de manipulação para a “direita”, que para manter-se no poder passou a jogar com o “terror do comunismo” e o “terror de uma revolução mundial” (“Imaginário e Terror” – Tempo 08:30). Para Escorel documentos escritos que revelam abertamente os propósitos revolucionários, inclusive assinados por autoridades soviéticas, não têm valor algum – são uma “manipulação” da “direita”.

Escorel diz ainda ter sido surpreendido com um Boletim Militar de Novembro de 1995 que se referia a um comunismo “encastelado” nas altas esferas de poder. Para o diretor é inconcebível que esta idéia ainda exista na “cabeça” de certo setor do Exército (“O Comunismo encastelado – Tempo 11:10). Porém, Escourel ou desconhece, ou despreza, outra ocorrência fundamental. Desde 1990 já estava constituído o Foro de São Paulo, organização encarregada de fomentar o Socialismo-comunismo na América Latina. Um de seus fundadores já ocupava o poder em seu país, Fidel Castro em Cuba - outro foi feito Presidente da República no Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva. Hoje a cadeira do Executivo brasileiro é ocupada por uma ex-integrante da VAR-Palmares (Vanguarda Armada Revolucionária Palmares), e autoridades ligadas ao Socialismo-comunismo ocupam postos estratégicos na estrutura do Poder Federal: no Ministério da Educação, Ministério dos Esportes, Ministério da Integração Nacional, na Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República, na Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados – entre outros. A contar por este cenário a declaração de Stálin adquire todo o sentido: revolução, uma idéia “tragicômica”. O grande estrategista revolucionário que zombaria de Escorel, pois sabia muito bem jogar, não apenas com as armas, mas também com a fraude, com a perfídia, com o engano.

Mas é preciso perguntar: Será que Escorel foi mesmo uma inocente vítima tardia do embuste stalinista? Ou será que as suas considerações equivocadas, e o próprio documentário, refletem apenas uma falha na pesquisa histórica, sem dar o devido valor ao precioso estudo de William Waack? Uma resposta para explicar o tropeço de Escorel pode ser tentada na verificação dos créditos do próprio documentário. Neles o “argumento” – o conjunto de dados históricos, políticos, sociais, econômicos e culturais que estruturam a narrativa - é assinado por Paulo Sérgio Pinheiro (Filme – Tempo 02:44), um típico “Intelectual acadêmico revolucionário”. Pinheiro foi nomeado em 2010, pelo então presidente Luiz Inácio Lula da Silva, para compor, como “representante da sociedade civil”, um grupo de seis membros incumbido de elaborar um projeto da “Comissão da Verdade” [Currículo Lattes -    http://buscatextual.cnpq.br/buscatextual/visualizacv.do?id=K4783968Y6] – uma suspeita comissão encarregada de apurar infrações contra os Direitos Humanos, sobretudo no período do regime militar. Ele foi defensor da versão do Plano Nacional de Direitos Humanos que previa o controle da imprensa, a cassação de concessão de rádio e TV, a extinção da propriedade privada, a restrição de uso de símbolos religiosos, a descriminação do aborto [http://veja.abril.com.br/blog/reinaldo/tag/paulo-sergio-pinheiro/]. 

Enfim, Eduardo Escorel talvez não seja uma pobre vítima dos truques stalinistas. Também não lhe faltou assessoria nas pesquisas históricas dos eventos que pretendia narrar. As suas considerações nos “Extras” do documentário, e a própria película dirigida por ele, refletem uma orientação maquiada: que não é a tentativa de descrição dos fatos, mas o esforço para promover uma peça panfletária construída por “Intelectuais” comprometidos com “revolução cultural” Socialista-comunista – e com apoio da Lei Audiovisual do Ministério da Cultura.

Escrito por Bruno Braga

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