As Faces das Desigualdades

 

Francisco Fernandes Ladeira[1]

 

Compreender as causas das desigualdades entre os seres humanos é um dos principais desafios dos cientistas sociais.                                                                                  

 Na Grécia Antiga, berço do pensamento ocidental, acreditava-se que as desigualdades entre os homens eram inatas. Desse modo, certos indivíduos eram naturalmente propensos a serem escravos, outros a serem senhores, alguns adaptados a trabalhos manuais, outros exclusivamente às atividades intelectuais, e assim por diante.

 Evidentemente, essa concepção equivocada não é mais admitida. Sabemos que as desigualdades não são naturais, mas socialmente construídas ao longo de um processo histórico marcado pelas diferenciações entre os seres humanos.                                        

 Para a concepção clássica, representada principalmente pelos pensamentos de Karl Marx e Max Weber, as desigualdades sociais estão relacionadas, essencialmente, à distribuição irregular da renda e dos bens materiais.                                                     

 Em contrapartida, para alguns intelectuais contemporâneos, os estudos sobre as desigualdades devem ir além da distribuição de bens materiais e do fator renda. Para estes autores, as desigualdades também devem ser associadas a fatores extra-econômicos (raça, gênero, nacionalidade) e às oportunidades de vida.                                             

 Um dos primeiros pensadores modernos a tratar exaustivamente o tema das desigualdades sociais foi Jean-Jaques Rousseau. Para o ele, o chamado mundo civilizado, através dos séculos, fomentou profundas diferenças entre os homens, sendo que as desigualdades sociais surgem com o aparecimento da propriedade privada.

 Para a Marx, as desigualdades sociais podem ser compreendidas através da irregular distribuição dos meios de produção. Na sociedade capitalista existem duas classes sociais básicas: de um lado a burguesia, detentora dos meios de produção; e de outro lado o proletariado, que possui somente a sua força de trabalho. Portanto, para o pensamento marxiano, o fim das desigualdades sociais passa, inexoravelmente, pela destruição do modo de produção capitalista, culminando com o advento do comunismo.

 Max Weber percebe as diferenciações entre os indivíduos a partir das variáveis propriedade, poder e prestígio. Assim, as diferenças de propriedade criam as classes; as diferenças de poder criam os partidos políticos; e as diferenças de prestígio criam os agrupamentos de status ou estratos.                                                                                           

 Por outro lado, autores contemporâneos, apesar de não negarem as interpretações clássicas sobre as desigualdades, procuram incluir fatores imateriais e extra-econômicos nas análises sobre as distinções sociais.

 Para Amartya Sen, as análises sobre as desigualdades devem se deslocar dos espaços de renda para o espaço de funcionamentos. De acordo com o economista indiano, funcionamentos são os desejos e aspirações que um indivíduo consegue realizar vivendo de uma determinada maneira. Assim, mais importante do que a questão monetária, é focalizar como determinado rendimento pode se transformar em realizações e melhorar a autoestima individual.

 Jessé Souza, sociólogo da Universidade Federal de Juiz de Fora, salienta que os estudos sobre as classes sociais precisam superar as abordagens tradicionais.                           

 Rejeita assim, tanto o liberalismo economicista, que vincula classe ao rendimento monetário; quanto o pensamento marxista clássico, que associa classe à posição de um indivíduo em relação ao modo de produção vigente.

 Aspectos econômicos e ocupacionais são condições necessárias, porém não suficientes, para definir uma classe.                                                                              

 Classes sociais não são determinadas pela renda, nem pelo simples lugar na produção, mas sim por uma visão de mundo “prática” que se mostra em todos os comportamentos e atitudes. O economicismo liberal, assim como o marxismo tradicional, percebe a realidade das classes sociais apenas “economicamente”.

 Desse modo, essas interpretações não levam em conta o mais importante, que é a transferência de valores imateriais na reprodução das classes sociais e de seus privilégios no tempo.

 Entretanto, é controverso menosprezar a importância do fator renda para se aferir as desigualdades sociais. Basta levarmos em conta que, em uma sociedade capitalista como a nossa, onde praticamente todas as relações sociais são regidas pela lógica mercantil, um rendimento monetário é condição sine qua non para que um indivíduo possa viver com o mínimo de dignidade e suprir suas necessidades vitais.

 Contudo, ao focalizar somente a variável renda para se analisar as desigualdades, incorremos no erro de apresentar uma visão incompleta e simplista sobre o tema.     

 As verdadeiras faces das desigualdades não se manifestam apenas no aspecto econômico. Estão presentes nos antagonismos raciais, sexuais, nacionais comportamentais, etc.                                                                                                         

 É importante salientar que nos Estados Unidos, por exemplo, para se medir o status de um indivíduo, a cor da pele, em várias ocasiões, é mais importante do que a conta bancária.                                                                                                                        

 Já em países extremamente religiosos, notadamente nas sociedades muçulmanas, as mulheres, mesmo possuindo uma condição financeira favorável, são menos valorizadas socialmente do que os homens pobres.                                                           

 Em suma, as causas das desigualdades sociais são extremamente complexas, não podem ser atribuídas a um único fator.                                                                                 

 Contudo, as desigualdades, ao serem historicamente construídas, também podem ser historicamente minimizadas.                                                                                      

Desse modo, mais importante do que entender as origens das desigualdades entre os seres humanos, é propor formas pragmáticas de extirpá-las. E esta tarefa não está a cargo apenas dos intelectuais. Consiste, talvez, no maior desafio para a nossa sociedade neste início de século.

 

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[1] Especialista em: “Ciências Humanas, Brasil: Estado e Sociedade” pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). Email: franciscoladeira@bol.com.br

Aquecimento Global

Francisco Fernandes Ladeira[1]

            

         

Entre os grandes temas da contemporaneidade, os debates sobre o aquecimentos global são, certamente, um dos mais complexos e polêmicos.

Grosso modo, aquecimento global pode ser definido como o aumento sistemático das temperaturas médias da Terra. As discussões sobre o assunto ganharam força em 1988 nos Estados Unidos. Naquele ano ocorreu um verão extremamente quente em algumas regiões do país.                     

Desde então, a ideia de que o planeta está se aquecendo foi difundida em escala global e vários movimentos ecológicos prontamente adotaram a tese de que determinadas atividades humanas estariam a ocasionar o aumento das temperaturas planetárias.

Entretanto, há várias controvérsias sobre quais seriam as verdadeiras causas do aquecimento global: realmente é provocado pelo ser humano? Ou trata-se de um fenômeno natural, em que a ação antrópica tem pouca, ou nenhuma, influência?

Preliminarmente é importante lembrar que a Terra não produz seu próprio calor, sua energia térmica é proveniente da estrela mais próxima: o Sol.         Assim, para que o nosso planeta não perca todo o calor recebido, ocorre um processo natural conhecido como efeito estufa.                                                                                   

O efeito estufa é caracterizado pela presença de certos gases na atmosfera (principalmente óxido nitroso, gás carbônico, metano e vapor d’água) que aprisionam parte da energia solar refletida pela superfície terrestre. Dessa forma, este fenômeno é responsável por manter a temperatura do planeta constante. Sem ele a Terra seria bem mais fria.                        

Portanto, ao contrário do promulgado pelos meios de comunicação e pelo senso comum, o efeito estufa (dentro de certo limite) é de vital importância para a vida em nosso planeta.

Segundo os partidários do aquecimento global antropogênico, o ser humano, ao lançar gases estufa na atmosfera, contribui peremptoriamente para intensificar o efeito estufa, tornando a Terra mais quente.

Entre as principais consequências do aquecimento global podemos citar a elevação do nível dos oceanos causada pelo derretimento das calotas polares (que pode provocar a submersão de várias cidades litorâneas); o crescimento e surgimento de desertos (desertificação); a disseminação de doenças típicas de climas tropicais em regiões temperadas; o aumento do número de furacões, tufões e ciclones; e alterações nos fluxos das correntes marítimas (o que paradoxalmente pode provocar um resfriamento global, principalmente no Hemisfério Norte).

Por outro lado, para os “céticos” o aquecimento global pode ser natural, pois a Terra ao longo de sua história apresentou vários ciclos de aquecimento e resfriamento.         

Segundo essa linha de raciocínio, o aumento das temperaturas médias pode ser atribuído a mudanças nas atividades solares (em outros termos, o sol está ficando mais quente) e 98 % do efeito estufa natural é provocado pelo vapor d’água e não pelos gases emitidos pelas atividades humanas.             

Dessa forma, a tese do aquecimento global antropogênico não passaria de um mito utilizado como pretexto para arrecadar vultosos fundos para grupos ambientalistas e também para demonizar determinadas fontes de energia e abrir espaço para a utilização em larga escala da energia nuclear (basta lembrar que Al Gore, um dos principais inimigos do aquecimento global, é um dos maiores acionistas mundiais da indústria nuclear).

Segundo Alexander Cockburn, “tal como a espiral de gastos com armas fomentadas pelos mercadores do medo da Guerra Fria, vastas quantias de dinheiro serão gastas inutilmente em programas que não funcionam contra um inimigo [o aquecimento global] que não existe. Enquanto isso, perigos reais e ambientais sanáveis são tratados superficialmente ou ignorados. A histeria governa estes dias, afogando necessidades urgentes de limpeza no nosso quintal enquanto aplaina o caminho para a indústria nuclear colher as suas recompensas globais”. 

De acordo com esta perspectiva, o ser humano pode, no máximo, modificar o clima local, sobretudo nas grandes metrópoles (as chamadas “ilhas de calor”).                              

Não obstante, um estudo realizado na Califórnia demonstrou que (em condições fisiográficas similares) as grandes cidades tendem a apresentar temperaturas mais elevadas do que as cidades médias e pequenas. Assim, o suposto aquecimento global é um fenômeno que está ligado somente às grandes aglomerações urbanas, e não a todo planeta.                          

Enfim, quais as verdadeiras causas das mudanças climáticas? Cientificamente não é possível comprovar se o aquecimento global é natural ou antrópico. A complexidade dos fatores climáticos e o pouco conhecimento humano em relações a estes fenômenos impedem um diagnóstico definitivo sobre o tema.

Independentemente de ser um fenômeno antropogênico ou não, o debate sobre o aquecimento global é uma excelente oportunidade para refletirmos sobre as relações entre o ser humano e o meio ambiente.

Está cada vez mais claro que o padrão capitalista de sociedade, ao privilegiar o consumismo exacerbado, pressupondo enormes demandas por matérias-prima, é incompatível com a sustentabilidade planetária. 

Sendo assim, fomentar um novo modelo de desenvolvimento não é mais uma questão apenas ideológica, é uma questão de sobrevivência.         

 


[1] Especialista em: “Ciências Humanas, Brasil: Estado e Sociedade” pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). Professor de História e Geografia da Escola Estadual Professor João Anastácio. Autor do artigo As relações políticas entre as famílias Bias Fortes e Andrada na cidade de Barbacena: da formação da poderosa aliança à criação do mito da acirrada rivalidade, publicado no periódico “Mal-Estar e Sociedade” (Editora EdUEMG). Email: franciscoladeira@bol.com.br

 

Resenha de shows do SWU
Fala galera!
Faremos algumas resenhas aqui no Zinne Cult de alguns dos shows do dia 14/11 no SWU. Postaremos também alguns vídeos. Os Colaboradores Oliveira, Léo Sorriso e Eu mesmo, estaremos in loco no evento e traremos pra cá as nossas impressões.
Em breve, não percam! Abraços Cordiais a todos!
Celim

...

Programação da segunda – 14 de novembro
Palcos principais:
14:10 – 14:55 Raimundos (0:45) | ENERGIA
... 15:00 – 16:00 Duff McKagan’s Loaded (1:00) | CONSCIÊNCIA
16:05 – 17:05 BRMC (1:00) | ENERGIA
17:10 – 18:10 Down (1:00) | CONSCIÊNCIA
18:15 – 19:15 311 (1:00) | ENERGIA
19:20 – 20:20 Sonic Youth (1:00) | CONSCIÊNCIA
20:25 – 21:25 Primus (1:00) | ENERGIA
21:30 – 22:30 Megadeth (1:00) | CONSCIÊNCIA
22:35 – 23:50 Stone Temple Pilots (1:15) | ENERGIA
23:55 – 01:25 Alice In Chains (1:30) | CONSCIÊNCIA
01:30 – 03:15 Faith No More (1:45) | ENERGIA
New Stage:
14:30 – 15:15 Medulla (0:45)
15:30 – 16:15 Ash (0:45)
16:30 – 17:30 Pepper (1:00)
17:45 – 18:45 The Black Angels (1:00)
19:00 – 20:00 Bag Raiders (1:00)
20:15 – 21:15 Miyavi (1:00)
21:30 – 22:30 Crystal Castles (1:00)
22:45 – 23:45 Simple Plan (1:00)

Vejam a programação completa no link:

http://www.swu.com.br/blog/2011/10/festival-posts/noticias-festival/acabou-a-espera-veja-o-horario-que-a-sua-banda-preferida-vai-tocar/


ZiNnE 2 em 1

Novidade no Zinne Cult, pessoal!

Como dois dos nossos colunistas escreveram sobre assuntos correlatos, resolvemos publicar os textos ao mesmo tempo. Foi uma feliz coincidência, eu diria.

Então, vamos a eles. Boa leitura!


Saudades de Léo Batista e Cid Moreira

Por Celim

 

Assisti um filme essa semana com Russel Crowe, que não lembro agora o nome. Seu personagem em determinado momento diz que, a exemplo dos humoristas, na vida nós temos que ter o “timing” .  Esse termo em inglês refere-se ao momento certo e preciso de agir. A vida parece nos oferecer oportunidades únicas e se bobearmos a oportunidade pode escapar e nunca mais voltar. Os humoristas por exemplo, muitos deles tem essa qualidade, ou seja, pressentem o momento certo de falar e assim a coisa fica engraçada. É como o bote da Leoa na pobre zebrinha, precisa ser eficiente e eficaz. Não é algo simples e talvez não seja pra qualquer um.

Mas porque estou falando isso? Vou chegar lá.

Espanta-me o declínio nos últimos anos de programas de televisão que há algum tempo atrás possuíam um padrão de qualidade mais apurado. Falar de tv no Brasil, infelizmente, ainda é sinônimo de falar a respeito da Rede Globo de televisão, já que a audiência é ainda muito superior às demais emissoras. Cito principalmente o fantástico, que ultimamente tem se superado na probreza de conteúdo e criatividade. Podem me chamar de saudosista, mas a falta que fazem os jornalistas que saíram em debandada da Globo como Paulo Henrique Amorim, Glória Maria, Roberto Cabrini, Joemir Betting entre outros, muito contribuiu para isso. Glória Maria e Pedro Bial ainda seguravam a peteca. Já o Zeca Camargo e a Patrícia Poeta são bons apresentadores, o problema não são eles, mas sim a quantidade de matérias muitas vezes supérfluas, rasas em profundidade jornalística, que já não são capazes atrair os espectadores, que assim como eu, na primeira oportunidade mudam de canal. No meu caso às vezes nem me lembro de voltar para lá e ver se tem ainda alguma coisa que interesse assistir. Nesse nicho, palmas ao Domingo espetacular da Rede Record que têm melhorado muito e já é um programa bem melhor que o fantástico, inclusive com a veia investigativa e denunciativa, essenciais à pratica do bom jornalismo. Imparcialidade é claro que não existe, não é disso que estou falando.

Soma-se a isso a nova moda da equipe de esportes da globo, que tem me causado arrepios. O que no início parecia moderninho, simpático, descolado, inovador, engraçado, já começou a dar sinais de desgaste. Capitaneados por Tadeu Schimit e que, justiça seja feita, conta com muita gente boa de serviço na equipe, inclusive ele, mas que pecam ao tentar, a todo custo, fazer graça utilizando de artifícios bizonhos como o João Sorrisão, entres outras coisas “sem sal”. Todos sabem do poder de influência exercido pela mídia, mas isso já extrapola os limites da sensatez. O que quero dizer é que não é preciso um modelo, um só formato que todos  precisam seguir para que se possa fazer um trabalho bem feito. Vide os canais ESPN brasileiros que conseguem na média apresentar seus programas com qualidade, boa dose de humor de forma espontânea e com excelência e responsabilidade jornalística. Tudo que é em excesso torna-se ruim. Fazer graça não á para qualquer um, é preciso ter o timing, ou é ou não é, não tem jeito. É como colocar-me para contar piadas, não vai funciona simplesmente, afinal cada “macaco no seu glaho”, já diz o ditado. O Tadeu por exemplo é bom nisso e o faz com naturalidade, mas outros tentando fazer o mesmo, como o Escobar por exemplo, já soa forçado.

E os jogadores de futebol comemorando os gols todos do mesmo jeito? Coisa triste. Isso não pode ser bom. Somos diferentes, isso é uma afronta à liberdade criativa. O gol é explosão de alegria e as comemorações não podem ser padronizadas.  Claro que muitos jogadores seguem a onda, a moda, mas todos já é demais. Imagine todos ouvindo as mesmas músicas que são sucesso, lendos os livros da moda, usando as roupas “da hora”, assistindo os mesmos programas. A mídia quer empurrar tudo isso goela abaixo. Outra grande “babaquice” ao meu ver é o tal do “inacreditável futebol clube”. Querem agora que o jogador obrigue-se a colocar a camisa do referido clube, como se aquilo fosse uma aceitação pessoal do próprios jogadores de que cometeram uma bizonhice. Até aí ainda é aceitável. O que não dá é ficar fazendo piadinha e exposição dos jogadores que não gostaram da brincadeira. É um direito deles não gostar disso e não querer participar, ou não é? Bem disse o Louco Abreu, atacante do Botafogo, que isso é coisa que inventaram para desmerecer os jogadores. Enfim, gosto é gosto, eu não aprovo, engula quem quiser, afinal como já bem disse Tom Zé “A cultura de massa é um saco de gato”.

Saudades de Léo Batista e Cid Moreira, esses sim “são os caras!”

Marcelo Rocha (Celim) é Administrador, apreciador de bons livros e boa música, moderador e colunista eventual do Zinne Cult


O Jogador e o boneco inflável

Por Francisco Fernandes

A atual temporada do Campeonato Brasileiro de Futebol não está interessante. Pelo menos para o torcedor mineiro. Rodada após rodada, atleticanos, americanos e cruzeirenses veem seus respectivos clubes cada vez mais próximos da Série B. Outra característica negativa do presente certame é o baixo nível técnico dos jogadores, o que vem a ser consequência direta do grande fluxo de futebolistas brasileiros para clubes do exterior.

Entretanto, apesar dos problemas em campo, fora das quatro linhas dois personagens têm chamado a atenção: o boneco inflável João Sorrisão; e Loco Abreu, atacante uruguaio do Botafogo Futebol e Regatas.

Vamos ao primeiro personagem. João Sorrisão foi criado para acompanhar a música homônima (interpretada pelo grupo “Os Havaianos”)exibida durante o programa Esporte Espetacular, da Rede Globo de Televisão. A letra da música (de gosto duvidoso) reflete a decadência do mainstream musical no Brasil. Não obstante, o programa lançou uma campanha para os atletas dos times que disputam a Série A do futebol brasileiro: o jogador que fizer um gol e imitar (eufemismo para adestramento) o João Sorrisão, ganha um boneco do personagem.

Dito e feito. Vários jogadores, mimeticamente, passaram a adotar a escalafobética coreografia ao comemorar seus tentos. Obviamente, não se trata de nenhuma novidade, visto que boa parte da população brasileira está “acostumada” a ser manipulada pelos meios de comunicação de massa.

“Ter opinião é tabu”

Por outro lado, Sebastián “Loco” Abreu comprova que ainda existe “vida inteligente” no cenário esportivo. O artilheiro uruguaio, que tem curso superior (algo raríssimo entre os jogadores brasileiros, mas comum para atletas de outras nacionalidades), tem se destacado pelas entrevistas polêmicas. Em uma delas, ao ser questionado se participaria do quadro “Inacreditável Futebol Clube”(exibido no Fantástico) por ter perdido um “gol feito” na partida entre Botafogo e São Paulo, Loco foi enfático: “Realmente, o `Inacreditável Futebol Clube´ é uma bobagem que vocês têm para sacanear o jogador, mas só quem está lá dentro sabe como é difícil jogar futebol.”

Evidentemente, podemos concordar ou não com esta afirmação. Entretanto, poucos indivíduos têm a coragem suficiente para criticar publicamente a poderosa emissora da família Marinho. Após as declarações de Abreu, não faltaram comentários odiosos à atitude do centroavante botafoguense na imprensa especializada e nas redes sociais da internet. Em um meio acostumado a padronizações e a frases clichês em entrevistas, como é o mundo do futebol, ter “opinião própria” ainda causa certo estranhamento.

Infelizmente, essa postura passiva não impera apenas nos bastidores do secular esporte bretão. No Brasil, a maioria da população ainda prefere ser guiada intelectualmente por pensamentos metafísicos e alheios (atitude que Nietzsche qualificava como “instinto de rebanho”), a ter uma postura crítica e racional frente à realidade. Lembrando as palavras do cantor e compositor Lobão, em entrevista a um programa do Record News, “no país da fofoca, ter opinião é tabu”.

***

[Francisco Fernandes Ladeira é especialista em Ciências Humanas, Brasil: Estado e Sociedade pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) e professor de História e Geografia]

Entre o Mestre e o “Intelectual" - parte I

Bruno Braga.

 

É célebre a asserção que abre a “Metafísica” de Aristóteles: “Todos os homens por natureza tendem ao saber” (980 a 21). No entanto, aceitar a afirmação do estagirita não implica dizer que todos os homens têm o mesmo grau de devoção ao conhecimento, nem que utilizam o seu aparato cognitivo da mesma forma. Alguns o aplicam para facilitar as tarefas ordinárias e atividades cotidianas, enquanto outros vão além, e o empregam em investigações abstratas ou na construção de instrumentos, mecanismos e obras arquitetônicas altamente complexas. Há ainda aqueles que se esforçam pela honestidade intelectual, por mais terrível que possa ser a verdade – porém, existem tantos outros que se servem do conhecimento para a elaboração do embuste, a disseminação da fraude, para a orientação e práticas perniciosas. Mas, independentemente do nível de consagração de cada indivíduo, ou do domínio no qual a aplica, o homem se apóia sobre a faculdade que o distingue de todas as outras espécies.

O conhecimento se faz através do primitivo processo de “tentativa e erro” – é assim na cruel batalha pela sobrevivência, no esforço contínuo para suprir as necessidades elementares da existência; e do mesmo modo na incansável busca pela elucidação dos mistérios do mundo e da vida, seja no âmbito da especulação abstrata ou no sofisticado domínio das ciências. Assim muito se conquista e muito se esclarece; mas, ao mesmo tempo, várias são também as confusões, os erros, e as perdas. O conhecimento tem esta dupla face porque a via sobre a qual ele se desdobra está constantemente sob a sombra da incerteza, já que não há no mundo homem dotado de clarividência absoluta - o que faz da cognição humana um processo precário e modesto: embora ela seja o fundamento da glória do homem, é também parte do seu drama.

Muito conhecimento foi produzido ao longo da História. Um material acumulado que pode ser de grande valia para o neófito que toma consciência dos desafios de seu próprio trajeto. De posse dele pode esquivar-se dos erros cometidos pelos antepassados, evitar o desgaste desnecessário com problemas já superados. Para isso o principiante precisa escolher com cuidado os seus Mestres, aqueles que serão a sua companhia no árduo e lento processo de aprendizado para enfrentar as batalhas da vida.

As lições e experiências do Mestre são fundamentais para a formação do discípulo. No entanto, são elas ainda insignificantes se comparadas com o imenso quadro de possibilidades da experiência humana, do qual a fatalidade pode retirar uma ocorrência surpreendente para o pupilo. Assim, neste drama existencial, Mestre e discípulo são os protagonistas de uma história de conquistas e perdas, de “tentativas e erros”. Eles são reféns, não apenas da fatalidade, mas também de suas próprias fraquezas e debilidades na busca pela compreensão do homem e de si mesmos, do outro, do mundo e da vida. Diante de desafios complexos e delicados é preciso, então, ser zeloso na escolha da companhia, na escolha dos Mestres – como aprendeu em lição o jovem Meister, de Goethe: “Aprenda a conhecer os homens nos quais se pode confiar!” [1]

Acontece que, mesmo tendo um horizonte repleto de problemas e dificuldades, alguns se arrogaram a capacidade de encurtar o longo e penoso caminho, oferecendo uma solução definitiva para o drama existencial dos homens: diziam ter um projeto para toda a humanidade. Estes, os “Intelectuais revolucionários” substituíram a instável “tentativa e erro” pela “certeza” de um “futuro promissor”. Contudo, para a realização do ambicioso projeto reivindicam o poder para guiar a humanidade através do necessário processo de transição - que em princípio exigiria medidas drásticas e violentas, mas imprescindíveis para a concretização do “mundo melhor”. 

Os “Intelectuais revolucionários” substituíram os antigos Mestres. A ambição dos primeiros ultrapassa o domínio modesto do individual, ou de pequenos grupos, para tomar uma proporção social e mundial. Julgam-se capazes de “reeducar” a humanidade; e mais, de transformar a sua natureza com a “conversão do olhar” de cada mortal, de modo a fazê-lo ver, em tudo, inclusive nas maiores barbaridades, uma necessidade para a realização do “futuro maravilhoso”. Assim estabilizariam a complexidade do humano e de suas relações, superariam as limitações e a precariedade do instrumental cognitivo, além de remediarem a instabilidade dos sentimentos e dos afetos.

Os antigos Mestres estavam conscientes das suas limitações e da sua própria miséria, embora não medissem esforços para se manterem na “senda reta”. Grandes gênios e honrados santos não afirmavam a sua genialidade ou a sua santidade. No plano cognitivo Sócrates duvidou da sentença do Oráculo de Delfos, que o proclamava o homem mais sábio de Atenas – a sua certeza era a de que nada sabia. E no plano religioso, Santo Agostinho era atormentado pelas fraquezas da carne. Por isso, uma obscuridade eventual na dimensão da vida pessoal dos antigos Mestres pouco representava para refutar as suas concepções, porque eles assumiam o drama existencial, a ameaça do erro e do “pecado” na busca da “Sabedoria” ou na sua devoção à “Verdade”. 

Mas e quanto aos “Intelectuais revolucionários”? Qual a relevância da vida particular deles para o julgamento adequado de seus projetos? É necessário exigir-lhes honestidade intelectual e autoridade moral para transformar a humanidade, ou estariam absolvidos e perdoados por causa do seu generoso projeto de um “futuro promissor”? Uma tese revolucionária lançou uma crítica aos filósofos, acusando-os de até então terem se limitado a “interpretar” o mundo: eles precisavam agora transformá-lo. Assim, os filósofos passariam a “Intelectuais revolucionários”, obedientes a uma nova hierarquia de valores, que tem no seu ápice a “ação”, a “práxis”. No entanto, seria prudente verificar a aplicação da tese dos “Intelectuais revolucionários” sobre eles mesmos e sondar o que “fizeram”, como “agiram”, e se “comportaram”, de modo a que a humanidade e o mundo, caso neles confiem, não corram o risco de serem modelados à imagem e semelhança de uma obscuridade interior[2].                    

Karl Marx é um dos pilares da “intelectualidade revolucionária”. Afirmando-se defensor da massa trabalhadora explorada, ele proclama a necessidade de uma revolução da classe proletária contra a minoria usurpadora, a burguesia. Neste processo revolucionário os “Intelectuais” têm um papel fundamental: eles são a elite, os generais; enquanto os trabalhadores são os soldados de infantaria[3]. Para o pensador alemão o privilégio concedido aos “Intelectuais” (comunistas) nesta espécie de “hierarquia militar” se deve ao fato de terem a vantagem da compreensão do andamento e dos resultados do movimento proletariado[4]. Os “Intelectuais”, então, seriam os “mestres”, profetas e guias, da classe trabalhadora. Mas é preciso perguntar seguindo as sugestões anteriores: qual o grau de devoção ao conhecimento, quer dizer, o nível de honestidade intelectual de Karl Marx? Qual a sua autoridade moral para configurar radicalmente as estruturas da sociedade?



[1] GOETHE, 2006, p. 471.

[2] A não ser que um “Intelectual revolucionário” hipócrita, por precaução, se coloque à margem de seu próprio projeto – obtendo, assim, salvo conduto para qualquer comportamento. Uma precaução para a qual vale a análise de Aristóteles sobre o homem apartado da sociedade: ou ele é uma besta ou é um deus (“Política”, Liv. I, 2-10).

[3] JOHNSON, 1990, pp. 70-71.

[4] MARX & ENGELS, 2002, p. 59.

 

Entre o Mestre e o “Intelectual" (Bruno Braga) - Continuação

Em certo sentido Marx foi um erudito. Além da vasta leitura, ele passou anos coletando dados em bibliotecas, informações de jornais, revistas, e de documentos oficiais do parlamento inglês. Contudo, não se pode dizer que Marx foi propriamente um investigador, isto é, alguém que estivesse comprometido com a adequada descrição dos fatos, com a busca da verdade. A partir de uma estrutura deturpada do processo cognitivo, Marx já possuía “uma verdade”, fazendo de sua pesquisa apenas uma seleção de dados que servissem para confirmar sua proposta. Além disso, mutilava o que era coletado, e freqüentemente o distorcia de modo a que se adequasse às suas teses preconcebidas.

“O Capital”, publicado em 1867, é um exemplo concreto das fraudes promovidas pelo seu próprio autor. Quando aborda as condições de trabalho no capitalismo, Marx remete o leitor à obra de Engels, “A situação da classe operária na Inglaterra”, de 1845. Este texto, a única fonte do pensador alemão sobre o tema, havia, de fato, sido concebido pelo filho de um industrial bem sucedido, mas que, na verdade, pouco contato teve com o ambiente de trabalho do operariado. Quanto à obra em si, ela, como referência para Marx, poderia ser considerada ultrapassada, se para este julgamento fossem adotados como critérios as constantes modificações do domínio que pretendia descrever e as datas de publicação: entre a obra de Engels e “O Capital” de Marx havia um hiato de mais de duas décadas. Acontece que o problema era ainda mais grave. Em 1958, W. O. Henderson e W. H. Challoner analisaram o texto de Engels e concluíram que ele não possuía qualquer valor histórico ou científico: tratava-se de uma obra panfletária, de propaganda política. Engels já utilizava informações desatualizadas, a partir das quais promovia interpretações distorcidas, quando não maquiava os próprios dados. Marx, por sua vez, não só acobertou as deturpações do amigo e parceiro – muitas delas denunciadas em seu tempo – como ainda ocultou a melhoria das condições de trabalho advinda da execução de exigências legais, como as “Leis Fabris”, adotadas desde o início do século XIX. Esta fraude não é uma ocorrência isolada entre os procedimentos intelectuais de Marx.

Em 1863 W. E. Gladstone, então Ministro da Fazenda inglês, em um discurso sobre gastos orçamentários disse o seguinte: “Eu deveria encarar quase com apreensão e com pesar esse aumento inebriante da riqueza e do poder se achasse que tal aumento se limitou à classe que está em condições favoráveis” [...] – e acrescenta: “a situação geral dos trabalhadores britânicos, como temos a felicidade de saber, melhorou ao longo dos últimos vinte anos num grau que, como sabemos, é extraordinário, e que quase devemos declarar como sendo sem paralelo na história de qualquer país em qualquer época” (grifo meu). Em declaração para a Associação Internacional de Trabalhadores – reproduzida em “O Capital” [1] – Marx atribui o seguinte discurso a Gladstone: “Esse aumento inebriante de riqueza e poder se limita inteiramente às classes proprietárias” (grifo meu). Com a manipulação do discurso de Gladstone, Marx estabelecia e estimulava o seu principal objetivo: a “luta de classes” [2].

Defensor obstinado dos trabalhadores – generosidade que parecia justificar a falsificação, o ocultamento, a manipulação, enfim, a desonestidade intelectual – Marx acabou virando as costas para um de seus protegidos: uma “trabalhadora” que nunca recebeu um tostão sequer, e que estava dentro da sua própria casa. Helen Demuth, ou simplesmente “Lenchen”, prestava serviços para a família Marx: cozinhava, passava, além de ser responsável pela administração do orçamento da casa. Ocorre que entre 1849 e 1850 Lenchen se torna amante de Marx, e fica grávida. O pensador alemão se esforça para ocultar de sua mulher, e de seus companheiros revolucionários, o “estado interessante” de Lenchen. Mas Jenny Marx, também grávida, descobre a condição de sua funcionária. Marx não assumiu a sua responsabilidade, e negou ser o pai da criança – registrada com o nome Henry Frederick Demuth, mas chamada simplesmente de “Freddy”. O menino foi oferecido para adoção a uma família de operários. Ele tinha permissão para visitar a família Marx, com algumas restrições: não poderia utilizar a porta da frente da casa; e era obrigado a ver a mãe apenas na cozinha. Marx temia que a verdade sobre Freddy fosse descoberta e manchasse a sua reputação enquanto “general”, membro da “elite intelectual” da revolução. Engels foi convencido a assumir a paternidade – porém, debilitado por um câncer no esôfago, escreveu em uma lousa o segredo que não deveria ser tragado pela terra junto com o seu corpo: “Freddy é filho de Marx [...]” [3].        

Perfeição e santidade não são atributos que se deva exigir do ser humano, um ser corrompido por natureza. São virtudes relacionadas sempre ao divino. No entanto, se um tipo como o “Revolucionário”, que acredita sobrelevar-se como “o escalão mais alto da humanidade” - autoproclamação de Che Guevara - portando um projeto que diz ser “científico” e reivindicando poder para transformar a humanidade e o mundo, então é, no mínimo, prudente checar as suas credenciais. Porque elas são o fundamento de seu próprio discurso. Acontece que, no caso dos revolucionários, como ilustra o exemplo de Marx, há, entre as suas teses, a sua “práxis”, e a sua generosa promessa, um conflito insolúvel. Agora, é imprescindível esclarecer: não se trata, aqui, de disputar a defesa da moral para este ou aquele segmento teórico-ideológico ou grupo político-partidário. Nem mesmo fomentar a resignação ou renúncia da vida prática. Mas ponderar sobre ambições aparentemente mais modestas, fundamentais para que ninguém se precipite a querer transformar os outros e o mundo conforme suas trevas interiores – suspeitar como o Julien Sorel de Stendhal: “o homem que quer expulsar a ignorância e o crime da Terra deve passar como a tempestade e semear o mal como ao acaso?” [4] Assim talvez fique claro que o fim é o próprio percurso – o longo, interminável, repleto de transtornos e tropeços sobre o qual havia ensinado o antigo Mestre – e não o projeto pronto e acabado do “Intelectual revolucionário”, que para a realização do sempre adiado “futuro maravilhoso”, rendeu à humanidade não apenas um aviltamento intelectual como também uma carnificina jamais vista ao longo da História.



[1] MARX, 1977, p. 471.

[2] Cf. JOHNSON, 1990, p. 79. Passagem que ainda sublinha as falsificações das citações de Adam Smith e um estudo minucioso, realizado em Cambridge no ano de 1880, sobre as deturpações sistemáticas de fontes promovidas por Marx.

[3] Idem, pp. 92-94.

[4] STENDHAL, 2002, p. 208.

 

Maconha, por que não legalizar?

Francisco Fernandes Ladeira [1]

Entre as grandes polêmicas do nosso tempo, os debates sobre a legalização da maconha são, certamente, um dos mais acalorados. De um lado estão os setores mais conservadores, decisivamente contrários à liberação do uso da erva. Do outro lado, estão os setores mais libertários, que defendem, de modo não menos enfático, a sua legalização.

     Para começarmos a discutir o tema proposto é imprescindível evitar opiniões maniqueístas e precipitadas. É absolutamente controverso acreditar que a legalização da maconha ensejará um aumento excessivo de usuários e desencadeará ondas de violência. É fácil constatar que o grande número de óbitos associados à maconha está diretamente relacionado à sua proibição, e não necessariamente ao seu consumo. Ou seja, morrem mais pessoas por causa da “guerra contra as drogas”, do que pelo uso de maconha. Outros mitos em relação a erva devem ser questionados: ao contrário do que muitos podem pressupor a maconha não é a porta de entrada para as chamadas “drogas pesadas”. Segundo pesquisas científicas, é o álcool, e não a cannabis, a primeira droga utilizada pela maioria dos usuários de cocaína, heroína, crack, LSD, e tantas outras substâncias ilícitas.

        Por outro lado, deve ser igualmente rejeitada a afirmação de que a maconha, por ser uma erva natural, não produz nenhum risco à saúde. Como qualquer outra “droga” seu uso constante e desenfreado provoca vários danos físicos e mentais. Outra falácia divulgada pelos grupos pró-legalização é afirmar que o uso de maconha não causa dependência (evidentemente isso pode variar de acordo com o usuário).

Mas, por que a cannabis sativa, planta utilizada há milênios para os mais diversos fins, atualmente tem seu consumo classificado como ilegal na imensa maioria das nações?

        Para começarmos a entender o porquê de a maconha ser proibida em praticamente todo o planeta devemos nos remeter aos Estados Unidos da primeira metade do século passado.

A princípio, o hábito de fumar maconha em terras ianques esteve associado aos imigrantes mexicanos. Sendo assim, demonizar a erva também consistia em uma forma de estigmatizar essa minoria social.

Nessa empreitada antimaconha o nome de Harry Jacob Anslinger, burocrata que presidiu o FBN (Federal Bureau of Narcotics, órgão criado pelo governo estadunidense para lidar com questões relacionadas às drogas), não pode deixar de ser mencionado.

Anslinger, motivado por interesses exclusivamente pessoais, conseguiu convencer influentes autoridades e a opinião pública estadunidense sobre os supostos malefícios de não se proibir a marijuana. Finalmente, após a Convenção Única de Entorpecentes da ONU, na década de 1960, foi recomendada, sob pressão do Governo de Washington, a proibição da maconha em todo o planeta.

A partir de então inúmeras campanhas publicitárias de conteúdo duvidoso foram realizadas com o intuito de propagar o mito da “erva maldita” e bilhões de dólares foram gastos inutilmente para combater a droga. Toda essa cruzada foi em vão. Mesmo tendo seu uso legalmente proibido, o número de usuários de maconha continuou crescendo em todo o planeta.

       Está demonstrado cientificamente que a maconha é menos letal do que várias drogas lícitas. Desse modo, é no mínimo controverso permitir o consumo de tabaco ou álcool, e reprimir o uso de maconha. Como diz o índio da música Cachimbo da Paz, de Gabriel, O Pensador: “com tantas drogas porque só o seu cachimbo é proibido?”  

        Não é estranho, assistirmos diariamente nos principais telejornais várias reportagens que apontam inúmeras mortes relacionadas direta ou indiretamente ao consumo desmedido de álcool, e, durante os intervalos desses mesmos programas, nos depararmos com propagandas que incentivam e glamurizam o uso de bebidas alcoólicas?

Importantes setores industriais são veementes contrários a liberação da maconha, não por questões morais, mas por razões mercadológicas.

Caso seja legalizada, a maconha será um forte concorrente comercial das bebidas alcoólicas e do tabaco. Certamente, algumas pessoas preferirão algumas tragadas em seu “baseado” a ingerir álcool ou fumar um cigarro.  

Não obstante, de acordo com análises feitas em laboratório, os efeitos da cannabis no organismo humano são semelhantes aos efeitos produzidos por remédios vendidos indiscriminadamente em qualquer drogaria. Desse modo, a indústria farmacêutica global não admite, em hipótese alguma, perder seu monopólio de “entorpecer” a população.

Assim, os partidários da legalização da maconha enfrentam, além dos setores conservadores, pelo menos três poderosos lobbies: da indústria farmacêutica, da indústria do tabaco e da indústria de bebidas alcoólicas.

A “desculpa” da “guerra contra as drogas” também é utilizada para escamotear as intervenções estadunidenses em outros países (vide o Plano Colômbia, por exemplo); para a repressão policial contra jovens pobres (principalmente negros) e para a ocupação de favelas cariocas (através das UPPs). Ademais, a realidade nos mostra que a guerra contra as drogas é um verdadeiro fracasso. Não diminuiu o número de usuários, como o anteriormente mencionado, e, em contrapartida, contribuiu para o crescimento da violência.

       Em suma, a proibição da maconha não está fundamentada em argumentos científicos e realistas, mas fomentada a partir de um pseudo-moralismo e de fortes interesses políticos e econômicos.

Bom, caso a maconha seja realmente legalizada, como deverá ser feita a sua produção e distribuição?  Deverá ser comercializada normalmente, como qualquer outro produto?

Preliminarmente, é importante ressaltar que, concomitante à legalização, devem ser lançadas campanhas sérias (e sem falsos moralismos) que apresentem para a população os prováveis malefícios do consumo de maconha.

Comercializar a cannabis, ou qualquer outra substância que provoque alterações sensoriais e cognitivas, por meio da iniciativa privada consiste em um grave equívoco. Para o mercado é interessante o consumo compulsivo de determinado produto, e não o bem estar dos indivíduos. Qualquer forma de consumo esporádico e controlado é rejeitada. É preciso vender cada vez mais, mesmo que isso traga malefícios aos consumidores.

Sendo assim, caso a maconha seja transformada em commodity e sua produção e distribuição destinada a produtores particulares, provavelmente aumentará o número de usuários irresponsáveis, menos pela curiosidade de experimentar uma erva exótica, do que pela influência maciça dos meios de comunicação de massa. Portanto, em hipótese alguma poderão ser permitidas campanhas publicitárias que incentivem o hábito de fumar maconha (aliás, também deveriam ser terminantemente proibidos os comerciais de TV que apregoam o consumo de bebidas alcoólicas).

Não é por acaso que a Souza Cruz, empresa líder do setor tabageiro no Brasil, já possui a patente, caso a maconha seja liberada, de uma futura marca de cigarros da erva, estrategicamente denominada “Marley” (em alusão ao maior nome do reggae mundial, conhecido usuário de marijuana).

Dessa forma, para evitar maiores contratempos, uma possível medida seria destinar a produção e a distribuição da cannabis exclusivamente para o poder estatal. Somente este tipo de controle pode garantir que o capital arrecadado com esse auspicioso comércio possa ser direcionado para os cofres públicos. Posteriormente, parte do montante gerado pela venda da erva poderia ser revertida para o tratamento e recuperação de eventuais dependentes. Todavia, deve-se permitir aos usuários plantarem para seu próprio consumo, desde que não tenham objetivos comerciais.

Enfim, como se pôde constatar no decorrer desse breve texto, não há argumentos plausíveis para a proibição da maconha, tampouco há razões lúcidas para incentivar o seu uso. Impedir alguém de escolher entre fumar ou não uma erva que é utilizada há milênios, ação esta que traz possíveis prejuízos somente a própria pessoa, é um grave ataque a liberdade individual. Cabe a cada um decidir o que é melhor (ou pior) para si.

Em última instância, é um crime ambiental determinar arbitrariamente que a cannabis sativa, vegetal que está no planeta há mais tempo que o ser humano, tenha cerceado seu direito à existência.

 


Francisco Fernandes Ladeira é Especialista em: “Brasil, Estado e Sociedade” pela UFJF. Autor do artigo As relações políticas entre as famílias Bias Fortes e Andrada na cidade de Barbacena: da formação da poderosa aliança à criação do mito da acirrada rivalidade, publicado no periódico “Mal-Estar e Sociedade” (Editora EdUEMG). Email: franciscoladeira@bol.com.br

 

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A Intentona de Escorel

Na sessão “Extras” do DVD “35, O Assalto ao Poder” (2002) há uma “Entrevista com o Diretor” do filme documentário, Eduardo Escorel. Além de esclarecimentos sobre a concepção e a produção do filme, o diretor apresenta uma análise do evento histórico que se propôs a narrar através da película: o levante comunista de 1935 no Brasil. Escorel, no trecho intitulado “O Projeto Comunista no Brasil” (Tempo 07:30), constata que há uma “defasagem” entre o propósito insurrecional comunista brasileiro e a política assumida por Stálin publicamente desde a década de 20, a do “socialismo em um único país”. Se o “Homem de Aço” afirmava que a revolução é uma idéia “tragicômica”, então, conceber um projeto de “revolução no Brasil” apoiado por Moscou, pensa Escorel, “é no mínimo discutível” – mesmo com a presença, adverte ele, de representantes do Komintern no país.

A tese defendida por Escorel é um completo equívoco. Se não houve uma grave falha na pesquisa para a composição do documentário, o tropeço do diretor se deve à sua incapacidade de compreender o grande estrategista revolucionário, Stálin. O “Tio Josef” não tinha debaixo das mangas apenas a “tática insurrecional”. Se publicamente ele restringia a revolução socialista às fronteiras do território soviético, simultaneamente, fora dos holofotes fomentava a revolução pelo mundo valendo-se de outras estratégias: instrumentalizando os movimentos “nacionalistas” ou promovendo a revolução “cultural” – esta última que tinha, entre outros canais, a Escola de Frankfurt e a ofensiva cultural no território norte-americano.

Escorel, mesmo sem conhecer, ou sem compreender, totalmente o arsenal estratégico stalinista, poderia ter livrado a sua análise histórica do equívoco caso tivesse valorizado uma fonte presente no seu próprio documentário: William Waack. O jornalista realizou uma vasta pesquisa nos Arquivos de Moscou para narrar o levante comunista de 35 no Brasil. O resultado deste trabalho foi o livro “Camaradas”, publicado em 1993. Nele Waack descreve minuciosamente – apoiado em documentos de fonte primária – os fatos e eventos daquele episódio da história nacional, e também os objetivos do Komintern, que coordenava e financiava a grande operação sul-americana. Preparada desde 1933, esta operação estava sob os cuidados de uma comissão especial, a “Comissão para a América do Sul” (p. 56). Porém, a sólida fundamentação documental fornecida por Waack não fora suficiente para convencer Escorel.

Entre vários outros registros, um telegrama do EKKI – Comitê executivo da Internacional Comunista – para o Partido Comunista Brasileiro fornece uma prova definitiva sobre o envolvimento de Moscou na insurreição de 35:

Questão da ação (o levante) geral decidam vocês mesmos quando acharem necessário. Assegurem apoio à ação do Exército pelo movimento operário e camponês. Tomem todas as medidas contra prisão de Prestes. Enviamos 25 mil por telégrafo. Mantenham-nos informados do rumo dos acontecimentos. (WAACK, 1993, p. 203. Nota 26. Secretariado do EKKI para o Bureau Sul-Americano, 27/11/35, Arquivo Histórico, 495.184.54, pp. 76 e 84).

Para Waack este talvez seja o único documento escrito de uma decisão elaborada no exterior, por uma organização controlada por potência estrangeira, que orienta o desencadeamento de uma operação militar para derrubar o governo brasileiro, com o qual não estava em guerra (p. 203). Acontece que, a julgar por suas palavras, Escorel não reconhece o documento acima transcrito, pois sustenta que a idéia de uma “revolução internacional” no Brasil é “no mínimo discutível”. O diretor pensa que o levante insurrecional comunista no Brasil foi super-valorizado, e serviu, posteriormente, como instrumento de manipulação para a “direita”, que para manter-se no poder passou a jogar com o “terror do comunismo” e o “terror de uma revolução mundial” (“Imaginário e Terror” – Tempo 08:30). Para Escorel documentos escritos que revelam abertamente os propósitos revolucionários, inclusive assinados por autoridades soviéticas, não têm valor algum – são uma “manipulação” da “direita”.

Escorel diz ainda ter sido surpreendido com um Boletim Militar de Novembro de 1995 que se referia a um comunismo “encastelado” nas altas esferas de poder. Para o diretor é inconcebível que esta idéia ainda exista na “cabeça” de certo setor do Exército (“O Comunismo encastelado – Tempo 11:10). Porém, Escourel ou desconhece, ou despreza, outra ocorrência fundamental. Desde 1990 já estava constituído o Foro de São Paulo, organização encarregada de fomentar o Socialismo-comunismo na América Latina. Um de seus fundadores já ocupava o poder em seu país, Fidel Castro em Cuba - outro foi feito Presidente da República no Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva. Hoje a cadeira do Executivo brasileiro é ocupada por uma ex-integrante da VAR-Palmares (Vanguarda Armada Revolucionária Palmares), e autoridades ligadas ao Socialismo-comunismo ocupam postos estratégicos na estrutura do Poder Federal: no Ministério da Educação, Ministério dos Esportes, Ministério da Integração Nacional, na Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República, na Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados – entre outros. A contar por este cenário a declaração de Stálin adquire todo o sentido: revolução, uma idéia “tragicômica”. O grande estrategista revolucionário que zombaria de Escorel, pois sabia muito bem jogar, não apenas com as armas, mas também com a fraude, com a perfídia, com o engano.

Mas é preciso perguntar: Será que Escorel foi mesmo uma inocente vítima tardia do embuste stalinista? Ou será que as suas considerações equivocadas, e o próprio documentário, refletem apenas uma falha na pesquisa histórica, sem dar o devido valor ao precioso estudo de William Waack? Uma resposta para explicar o tropeço de Escorel pode ser tentada na verificação dos créditos do próprio documentário. Neles o “argumento” – o conjunto de dados históricos, políticos, sociais, econômicos e culturais que estruturam a narrativa - é assinado por Paulo Sérgio Pinheiro (Filme – Tempo 02:44), um típico “Intelectual acadêmico revolucionário”. Pinheiro foi nomeado em 2010, pelo então presidente Luiz Inácio Lula da Silva, para compor, como “representante da sociedade civil”, um grupo de seis membros incumbido de elaborar um projeto da “Comissão da Verdade” [Currículo Lattes -    http://buscatextual.cnpq.br/buscatextual/visualizacv.do?id=K4783968Y6] – uma suspeita comissão encarregada de apurar infrações contra os Direitos Humanos, sobretudo no período do regime militar. Ele foi defensor da versão do Plano Nacional de Direitos Humanos que previa o controle da imprensa, a cassação de concessão de rádio e TV, a extinção da propriedade privada, a restrição de uso de símbolos religiosos, a descriminação do aborto [http://veja.abril.com.br/blog/reinaldo/tag/paulo-sergio-pinheiro/]. 

Enfim, Eduardo Escorel talvez não seja uma pobre vítima dos truques stalinistas. Também não lhe faltou assessoria nas pesquisas históricas dos eventos que pretendia narrar. As suas considerações nos “Extras” do documentário, e a própria película dirigida por ele, refletem uma orientação maquiada: que não é a tentativa de descrição dos fatos, mas o esforço para promover uma peça panfletária construída por “Intelectuais” comprometidos com “revolução cultural” Socialista-comunista – e com apoio da Lei Audiovisual do Ministério da Cultura.

Escrito por Bruno Braga

Guinada à direita do Governo Dilma Rouseff

Francisco Fernandes Ladeira [1]

 

Boa parte da esquerda brasileira comemorou a vitória da petista Dilma Rouseff sobre o tucano José Serra nas eleições presidenciais do ano passado. Afinal, lembrando o editorial do Jornal Brasil de Fato: se Dilma não seria o governo dos nossos sonhos, certamente o Serra, seria o governo dos nossos pesadelos.

Dessa forma, muitos pensaram que, por mais quatro anos, estaríamos livres das políticas neoliberais e reacionárias promovidas pelo PSDB.

            O governo Lula, apesar de manter a estrutura conservadora do Estado Brasileiro, apresentou significativos avanços em relação ao seu antecessor, Fernando Henrique Cardoso.

            Entretanto, paradoxalmente (ou não!), em seus primeiros meses de governo, Dilma Rouseff tem-se mostrado tão direitista quanto seus rivais tucanos.

Logo que assumiu a presidência, uma de suas primeiras medidas foi o corte de 50 bilhões do Orçamento Geral da União para 2011 (montante que poderia ser utilizado para promover políticas sociais). 

No dia 23 de fevereiro, o Governo aprovou, com o apoio de sua base parlamentar, um irrisório aumento de 5 reais no salário mínimo (sendo que o ideal seria um valor bem maior) em nome de uma suposta “austeridade” (qualquer semelhança com o léxico neoliberal não é mera coincidência).

            Em relação aos direitos humanos, a primeira mulher a ocupar a Presidência da República assumiu, nos primeiros dias de seu mandato, o compromisso de promover políticas públicas que beneficiassem as minorias.

Surgiram assim ideias interessantes como o desarquivamento do PLC (Projeto de Lei da Câmara) que criminaliza ações homofóbicas. Através do chamado kit “Escola sem homofobia” (pejorativamente qualificado como kit-gay por parlamentares evangélicos) o MEC pretendia despertar nos estudantes secundários a importância de se respeitar as diferenças.

No entanto, o governo cedeu ao lobby religioso e desistiu de distribuir o material anti-homofobia em troca da não convocação de uma CPI para investigar o enriquecimento do ex-ministro da Casa Civil, Antonio Palocci.

            Outro exemplo que demonstra a guinada à direita do governo Dilma diz respeito às relações internacionais. A política externa do ex-presidente Lula, calcada na aproximação com os Países do Sul - notadamente as nações que não se curvam ao imperialismo estadunidense como Venezuela, Cuba e Irã - foi bastante elogiada por setores da esquerda. Nesse aspecto, o governo petista foi marcado pelo não alinhamento incondicional aos EUA e pelo respeito aos nossos vizinhos sulamericanos. Como asseverou Chico Buarque: “um governo que não falava fino com Washington, nem falava grosso com o Paraguai e a Bolívia”.

Já o atual governo, na contramão do anterior, ajudou a aprovar medidas contra o Irã no Conselho de Segurança da ONU e recebeu com todas as honras o beligerante Barack Obama (basta lembrar que a autorização para que o exército estadunidense atacasse a Líbia partiu de solo brasileiro). Não foi à toa que o primeiro presidente negro da História dos Estados Unidos da América veio ao Brasil. Na pauta estavam acordos nos setores energéticos e da construção civil, além da participação de capital ianque nos leilões do petróleo brasileiro.


Evidentemente seis meses é um período demasiadamente curto para maiores conclusões sobre o governo Dilma Rouseff. Porém, como diz o ditado: “pelo andar da carruagem, se vê logo quem vem dentro”.


           Falando no famoso combustível fóssil, um dos maiores debates da última campanha presidencial girava em torno das privatizações de nossas riquezas naturais durante o período FHC. Dilma assegurava que não promoveria a espoliação do patrimônio nacional; entretanto, em seu mandato, boa parte das concessões de exploração de petróleo em território brasileiro vai passar para a iniciativa privada internacional. Definitivamente, “o petróleo já não é nosso”.

No atual governo, que possui ampla maioria parlamentar, políticas progressistas são rejeitadas pelo Legislativo, enquanto medidas que agradam aos setores mais conservadores da sociedade - como o novo Código Florestal e o irrisório aumento do salário mínimo - são ratificadas sem maiores dificuldades. Paradoxalmente, um Executivo supostamente de esquerda, somente consegue aprovar políticas de direita no Congresso.

Evidentemente seis meses é um período demasiadamente curto para maiores conclusões sobre o governo Dilma Rouseff. Porém, como diz o ditado: “pelo andar da carruagem, se vê logo quem vem dentro”.

A guinada à direita do Governo Dilma é fato. Não obstante, a presidenta recebeu elogios de importantes setores da mídia conservadora, como a Rede Globo de Televisão e a Revista Veja (principalmente em relação ao andamento da política externa). Kátia Abreu (ela mesma, a ruralista), em entrevista à Rede TV, teceu vários comentários positivos em relação ao atual governo.

Infelizmente o PT deixou de ser um partido comprometido com os anseios do povo brasileiro. É absolutamente complicado classificar o Partido dos Trabalhadores como uma organização partidária realmente de esquerda. Parafraseando Oliveira Viana: “nada mais tucano do que o PT no poder”.

 


 

Francisco Fernandes Ladeira é Especialista em: “Brasil, Estado e Sociedade” pela UFJF. Autor do artigo As relações políticas entre as famílias Bias Fortes e Andrada na cidade de Barbacena: da formação da poderosa aliança à criação do mito da acirrada rivalidade, publicado no periódico “Mal-Estar e Sociedade” (Editora EdUEMG). Email: franciscoladeira@bol.com.br

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Reflexões sobre o cenário musical nos dias atuais

 

Marcelo Rocha (Celim)[1]

 

Depois do excelente texto do Francisco Ladeira , sobre a decadência da música radiofônica no Brasil, tive que me policiar para não entrar no mérito do seu texto. Apesar disso, como são assuntos correlatos, adentrei em temas citados no referido artigo, não tive como.

Sou apreciador de música, cresci ouvindo muita coisa de tabela com meu irmão, em suas fitas e discos de vinil da década de 80. Sempre gostei mais de ouvir do que ver, prefiro os CD e discos, do que os DVD´s. Desde cedo percebi que, invariavelmente, as boas músicas sobressaem-se e não são esquecidas. Vira e mexe, ouço uma música tocando e penso: “que legal, isso é bom, quem canta isso mesmo?”

Lembro-me que até alguns anos atrás tínhamos mais o que dizer e discutir sobre música. Nas conversas na rua, na escola, falávamos de futebol, de mulheres e também de música. Minha juventude ocorreu em um período de grande efervescência no cenário da música a nível mundial, era a década de 90. Discutíamos às vezes até de forma áspera, como faz um torcedor de time de futebol. Comprávamos revistas, buscávamos notícias, isso nos entretia.

É sabido que nas décadas passadas tivemos fenômenos musicais de maior amplitude, seja na década de 50/60 com a popularização do rock a nível mundial, a bossa nova levando ao mundo a música brasileira, a onda da disco-club na década de 70, os anos 80 – apesar de considerados por alguns a década perdida também na música - só para citar alguns momentos relevantes. Mas fato é que nos anos 90 também existiram cenas, movimentos impulsionados pela música. Vide o movimento grunge em Seattle nos EUA ou mangue-beat no Brasil, entre outros. Fato é que tais movimentos colocavam a música em evidência, a tinham como objeto, centro das atenções, ou seja, a mantinham em destaque, a música era notícia.

Mas, vieram os anos 2000 e as novidades definharam. Algumas bandas ressurgiram é verdade, como o U2, com um bom disco no início da década chamado All That You Can't Leave Behind (2000), entre outras é claro, mas na média pouca novidade e quase nenhuma banda ou artista que chamasse muita atenção. Muitas bandas encerraram as atividades, outras voltaram, mas sem o mesmo brilho. É claro que não estou generalizando e decerto houve quem fizesse bons discos, mas não vou citar nomes aqui para não cometer injustiças, já que acabaria esquecendo algum, mas de forma geral, considero este um período pouco fértil.

Estaria eu sendo muito pessimista ou saudosista, a ponto de não perceber que o mundo mudou e que as preferências das pessoas também mudaram. Ou será que a nova geração, por não ter contato com a música de outras épocas, aceita e assimila o que é feito hoje em dia com naturalidade, acreditando que seja de boa qualidade? Não creio.

Um esclarecimento importante: não faço aqui a defesa de que não exista nada que mereça crédito hoje em dia, não é isso e sim que hoje muitas músicas e/ou músicos destacam-se devido a outros fatores que não necessariamente a qualidade musical e artística. Será este o motivo para que ela música já não ocupe o mesmo destaque que detinha em décadas anteriores. Não estaria o desinteresse das pessoas pelo tema diretamente ligado a qualidade apresentada atualmente?

Ademais, sei que sempre existiram grupos de uma só música de sucesso e que depois desapareceram, mas hoje isso é muito mais comum. Os hits do verão, do carnaval daquele ano, as músicas e artistas da moda, lançados pela mídia, que surgem e desaparecem com incrível velocidade.

Por outro lado, algumas bandas que já deveriam ter encerrado a carreira seguem fazendo a alegria de fãs alienados, trazendo “mais do mesmo” em seus novos discos. rtistas que se intitulam modernos fazendo mades voltando ia de fonto de ns apaAlgumas boas bandas que encerraram as atividades estão voltando sem o mesmo brilho de antes. Cito, para exemplificar o que quero dizer, o Capital Inicial, banda que respeito pela obra produzida na década de 80 e início dos 90, mas que hoje é um grupo que mudou totalmente sua vertente musical, para soar jovem e moderno, perdendo assim sua essência. Claro que temos outros exemplos conhecidos que não vou citar aqui para não criar polêmicas desnecessárias.

Jabás e outros fatores a parte, vejo com pessimismo o quadro atual da música. A música (a popular pelo menos) hoje é feita pra ser descartável, com prazo de validade, visando apenas retornos financeiros e isso é um grande desserviço à nossa cultura. Há quem diga que gosto não se discute. Eu digo que isso seja está mais pra falta de cultura musical, interesse em buscar e selecionar o que se quer ouvir.

O grande consolo é pensar que há também outra perspectiva no cenário atual, de que esta música popular descartável não incomoda já que é passageira e, que no final das contas, apenas as obras de qualidade permanecem. Nisso eu acredito.

A música ainda é notícia? Sim, mas com menos destaque. Lady Gaga e afins são produtos criados pela mídia, que quer nos “empurrar goela abaixo”. E pior, muitos engolem. Vivemos em tempos em que os sucessos são fabricados e as ondas são passageiras.

Para encerrar, não podia deixar de citar a frase da semana, que é um retrato do nível de superficialidade no meio musical atual, dita pela cantora Sandy, em entrevista no Programa do Jô: “"Não sou fã da música sertaneja. Não é meu estilo nem meu gosto. Não me identifico. Mas eu respeito muito. Sou fã só do meu tio e do meu pai", afirmou a cantora.

Existe um ditado que diz que “somos felizes na ignorância”. Aí talvez esteja uma possível explicação. Desculpem-me, mas eu me sinto incomodado. Sem mais comentários...

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[1] Marcelo Rocha (Celim) é Administrador, apreciador de bons livros e boa música, moderador e colunista eventual do Zinne Cult.

 

Reescrevendo a História

A memória de uma comunidade é preservada quando os seus membros transmitem, para as novas gerações, as experiências vividas por eles no passado. Assim se constitui uma tradição, repassada por meio da oralidade, dos testemunhos, das lições dos mestres, dos registros escritos, dos documentos e livros. Aos mais jovens é recontada a trajetória de sua família – e a de seu povo - despertando neles uma consciência ainda adormecida, a consciência histórica. Ocorre que neste processo que se refaz através do tempo, o elo se rompe quando alguém decide reescrever o passado, e contar a história da sua maneira – quer dizer, transmitir uma versão particular dos fatos, e não aquela que envolve toda a comunidade. Pois é deste modo que um grupo está narrando, há algum tempo, parte das experiências do Brasil: ele conta a sua versão da história e a transforma na memória de todo um país – o faz em um coro quase uníssono, que sussurra com voz melíflua um discurso romântico, capaz de entorpecer uma geração quase inteira e prestes a reconstruir totalmente a consciência histórica da futura.

Neste processo os educadores seguem as lições de seus “novos” mestres – a intelectualidade. Estes, por sua vez, estão intimamente articulados com os ocupantes das altas instâncias do poder político: das alturas, confabulam uma versão do passado - a versão do grupo, ou do “Partido” - que deverá ser transformada em cartilha. Um Manual que os professores seguirão rigorosamente para formar a “consciência crítica” de seus pupilos. Deste modo os educadores da nação cumprem a sua função, transmitem a história “reescrita”: são, junto com seus mestres, “intelectuais orgânicos”, quer dizer, uma raiz do “Partido” que forma a consciência histórica de jovens e adolescentes nos bancos escolares e universitários, e que contribui fortemente para a construção de uma cultura. Uns o fazem como militante decidido, outros como um “idiota útil”, um “Polieznyi”.

No entanto, diante desta engrenagem intelectual-político-educacional, seria prudente interrogar: antes que ela pudesse funcionar, como mestres e políticos alcançaram o status e a autoridade para reescrever a História e ensiná-la em quase uníssono? Para além do simplesmente “contado”, o que foi realmente “vivido”? Talvez um fato cotidiano possa lançar algumas pistas para elucidar esta trama.

Há poucos dias uma entrevista do Deputado Federal Jair Bolsonaro (PP-RJ) causou certa repercussão. Em um programa humorístico o parlamentar respondia a perguntas que lhe eram repassadas através de uma gravação em computador. Entre as questões, feitas por pessoas comuns, havia uma da cantora Preta Gil, que motivou toda a polêmica. Interrogado sobre como reagiria se seu filho se casasse com uma negra, o parlamentar não hesitou: “Não vou discutir promiscuidade com quem quer que seja. Eu não corro esse risco porque meus filhos foram muito bem educados, e não viveram em ambiente como lamentavelmente é o teu”. Imediatamente o Deputado – conhecido por sua oposição, não a negros e homossexuais, e sim aos movimentos políticos que se utilizam da “raça” e da “sexualidade” - foi acusado de “racista” por líderes de grupos negros e LGBT’s, por artistas, intelectuais e também por políticos.

Para quem assiste ao vídeo [http://www.youtube.com/watch?v=HyaqwdYOzQk&feature=topvideos] é possível perceber, claramente, que a resposta de Bolsonaro não se ajusta à pergunta – indício de que, ou não compreendeu a questão ou se confundiu, supondo tratar-se de um casamento imaginário entre seu filho - não com uma “negra” - mas com um homossexual. Aliás, grande parte das questões anteriores à de Preta Gil tratavam da homossexualidade, com o objetivo explícito de fazer o parlamentar manifestar as posições que fizeram dele um deputado “polêmico”.

No entanto, a reação dos indignados não estava fundada no que viam ou ouviam – uma resposta mal-educada, ou “politicamente incorreta”, para uma questão não compreendida. Não se prestou atenção no conteúdo e na condução das perguntas - e nem mesmo na edição do programa, que acrescentou, a determinadas respostas do deputado, uma série de sons que insinuavam ironia. Ademais, ninguém deu importância para um contexto que ultrapassa a exibição do vídeo – não o contexto imediato da polêmica, mas o que se estende desde o passado, no qual estão inseridos o deputado e seus principais opositores. Nenhum destes elementos serviu para uma ponderação anterior ao julgamento – a condenação deveria ser imediata, e a sentença sumária foi dada, com fundamento nas lições aprendidas na escola e reforçadas por toda uma cultura: Bolsonaro é um “racista”, “fascista”; um representante da “extrema direita” – por ser militar reformado, e defensor do regime conduzido por seus companheiros de farda no Brasil, é um “resquício” da “ditadura militar”, da “repressão” e da “tortura”.

Neste coro harmônico duas vozes se destacaram: as dos Deputados Federais Manuela D’Ávila do PC do B-RS e Jean Wyllys do PSOL-RJ. Juntamente com outros parlamentares eles assinaram uma representação contra Bolsonaro, enviada para o Presidente da Câmara.

Manuela e Jean são filiados a partidos fundados na doutrina marxista-leninista, partidos comunistas-socialistas. Os parlamentares empunham bandeiras de regimes que, ao longo da história, foram verdadeiras máquinas de produzir cadáveres. No século XX tombaram mais vítimas que a soma das duas guerras mundiais, das ditaduras de direita, das epidemias, dos desastres e catástrofes naturais enfrentados pela humanidade – mais que todos estes eventos juntos. Para R. J. Rummel os regimes comunistas-socialistas não praticaram o “genocídio”, mas um verdadeiro “Democídio” (Cf. http://rudyrummel.blogspot.com/ - também para uma apresentação detalhada destes cálculos). Mataram mais que o regime Nazista: na contabilidade são 100 milhões de mortos contra 25 do séquito do Führer (Cf. COURTOIS, 1998, p. 29).

Já no contexto nacional, Manuela D’Ávila representa uma sigla que, desde 1922, ano de sua fundação, busca – seja através dos meios legais, ou da clandestinidade – a implantação da “ditadura do proletariado”. Para isso contou com o financiamento da extinta União Soviética, de Cuba e da China – recebendo não apenas dinheiro, mas também treinamentos de guerrilha e armas. Para conquistar o poder os correligionários julgaram necessário empunhar armas – o que os fundadores do partido de Manuela, seus herdeiros, e outros grupos solidários aos mesmos ideais, fizeram muito antes da “Ditadura Militar” que os combateu: em um momento em que não se podia justificar o conflito com a “luta pela Democracia”. Porém, para cumprirem o projeto marxista-leninista, os “revolucionários” promoveram atentados, detonaram bombas, assaltaram bancos, carros pagadores, seqüestraram, fizeram reféns – inclusive crianças. Nestas ações feriram e mataram inocentes. Convocaram “Tribunais Vermelhos” para os “justiçamentos”, isto é, a condenação sumária à morte de pessoas que não tiveram qualquer direito à súplica. Sentenciaram à pena capital militares sem chance de defesa, como Alberto Mendes Júnior, e gente simples, que não está nem entre os figurantes da história contada nas salas de aula: Osmar, “Pedro Mineiro”, “João Mateiro”. Decidiram a morte de seus próprios companheiros, suspeitos de “vacilação em convicções ideológicas e divergências políticas” (Para todos estes relatos Cf. USTRA, “A Verdade Sufocada: A História que a esquerda não quer que o Brasil conheça", 2007).

Jean Wyllys, por sua vez, é filiado a uma sigla que, há bem pouco tempo, tinha como presidente uma entusiasta do regime cubano – patrocinador da luta armada no Brasil. Ligado a grupos LGBT o parlamentar talvez desconheça o tratamento dedicado pelo “Comandante” aos homossexuais. O processo de “reeducação” imposto por ele seguia uma disciplina rígida: os homossexuais eram submetidos a um “julgamento” público, no qual deveriam confessar abertamente os seus “vícios” (COURTOIS, 1998, p. 735). Isto quando não eram afastados do convívio social, trancafiados em Hospitais psiquiátricos sob o diagnóstico de “comportamento desviante”. Se Jean não abraçasse a bandeira comunista-socialista, mas adota-se somente a cor dela, talvez estivesse mais próximo de sua causa, simbolizando o sangue de muitos, que semelhantes a ele na sexualidade, foram executados em Cuba sob a condenação de “delito moral”.

Manuela e Jean se auto-intitulam, respectivamente, “a nova cara da política” (www.manuela.org) e o “novo” deputado (http://jeanwyllys.com.br). No entanto, apenas colaboram com os seus correligionários que, um dia “revolucionários”, alcançaram e têm agora o poder. Foram derrotados nas armas, mas habilidosamente vitoriosos em outra batalha - a da “revolução cultural”. A partir dela passaram a reescrever o passado, contaram a sua versão sobre o combate travado contra os militares, e o romance que criaram se transformou na memória de um país, transmitido aos jovens, formando uma cultura – a “ditadura do proletariado” se transformou em “luta pela democracia”. Assim, os “revolucionários” de outrora, membros do “Partido” agora, adquiriram o status e a autoridade para, com base nos estereótipos por eles mesmos criados, “justiçarem” os antigos inimigos: “fascista”, “ditador”, “direitista radical”, “torturador”. E Bolsonaro é um representante dos velhos rivais, e no âmbito da política, um dos últimos que restaram para contar uma História que está sendo reescrita por apenas uma das partes. Quantos já ouviram o que ele tem para dizer fora de um programa humorístico? O que ele tem para contar sobre as ações militares, e, sobretudo, a respeito da esquerda? (Cf. os discursos de Bolsonaro na Tribuna da Câmara e nas Comissões do Congresso [www.youtube.com]) Nesta história o deputado não é apenas uma figura “caricata”, um político “conservador” e exaltado. Dentro da estratégia política ele seria um personagem no mínimo “inconveniente”. Porque com a instauração da “Comissão da verdade” - encarregada de apurar os “crimes cometidos pela repressão”, mas composta predominantemente por entidades e pessoas ligadas ao “Partido” – ele recordaria um pouco da História do Brasil que os “revolucionários” que agora ocupam as instâncias de poder pretendem reformular, reescrever: o da “Ditadura” – ou será da “Contra-revolução”? – Militar. Reescrever não em nome da nobre “Democracia”, mas para estabelecer uma verdadeira “Hegemonia”.

Diante destes fatos, coincidência, ou não, a polêmica com o Bolsonaro ocorreu nas vésperas de 31 de Março - uma das datas favoritas dos “revolucionários” para promoverem atentados de impacto durante o período da luta armada; agora, com ambição de instaurar uma “Comissão da verdade”, a polêmica é sugere uma oportunidade estratégica.



     Escrito por Bruno Braga - Colaborador do Zinne Cult

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A “autovitimização” de um frade dominicano.

Bruno Braga

 

“Infelizmente o nosso Governo não está abrindo os arquivos da ditadura. Mas a arte brasileira o faz, e o ‘Batismo de Sangue’ é primoroso neste sentido”.

 

Com estas palavras Frei Betto comenta o filme “Batismo de Sangue”, filme baseado no livro homônimo de sua autoria (“Batismo de Sangue”, dirigido e produzido por Helvécio Ratton – DVD: Extras, Making Of, Tempo 21:05). O frade dominicano denuncia a existência de obstáculos, dificuldades, impedimentos, estabelecidos pelo “Governo” brasileiro para acessar documentos relativos ao período histórico em que o país esteve sob o regime militar. O filme, no entanto, preencheria a ausência da documentação oficial, pois ele, segundo o próprio Betto, “escancara os crimes da ditadura, a violência da ditadura” (Cf. seqüência do mesmo trecho do DVD citado acima), contando o envolvimento e a atuação de um grupo de frades dominicanos nas questões políticas da época, descrevendo ainda o conturbado contexto da ocorrência dos fatos.

Acontece que, ao conferir os patrocinadores do filme “Batismo de Sangue”, verifica-se, surpreendentemente, o apoio do mesmo “Governo” criticado por Frei Betto. “Governo” que aparece representado por suas três esferas administrativas, Federal, Estadual e Municipal – respectivamente, pelo Ministério da Cultura (Brasil, Governo Federal), Governo de Minas (Cultura – “Filme em Minas”) e Prefeitura BH (Cultura – Fundação Municipal) [Cf. A lista completa dos patrocinadores encontra-se imediatamente após este texto; nela constam ainda empresas públicas federais, estaduais e outras de caráter privado. Os patrocinadores podem ser conferidos nos créditos iniciais do filme e nos créditos do “Making Of”, sendo os deste último no tempo 22:12].

Seria prudente, no mínimo, questionar: como o “Governo” brasileiro estaria dificultando a abertura dos arquivos da ditadura se, ao mesmo tempo colabora, financia, patrocina um filme que, segundo o próprio Frei Betto, “escancara”, quer dizer, revela e denuncia os crimes e a violência de tal período da história nacional? Em outras palavras, se o “Governo” esconde uma documentação comprometedora, como, por outro lado, patrocinaria uma película que os substitui e, conseqüentemente, funcionaria como uma espécie de “auto-denúncia”? A confusão de Frei Betto é, na mais branda hipótese, estranha. Poder-se-ia tentar algum esclarecimento; não verificando os mecanismos “burocráticos” de acesso aos arquivos dos documentos – seria pertinente examinar o modo como foram representados os protagonistas do filme, e também analisar o próprio discurso de Frei Betto: em ambos está presente um elemento valioso para a compreensão pretendida, a “vitimização”.

No filme de Helvécio Ratton os personagens principais, os frades dominicanos, são carregados de martírio e santidade - sobretudo Tito. Eles têm expressões faciais contemplativas, discursos melífluos adornados com a poética e com a “utopia”. Traços que são trazidos para o primeiro plano da narrativa com o intuito claro de construir uma imagem, criar ídolos, heróis sacro-santos, enquanto as ações políticas são colocadas como simples pano de fundo. Ocorre que, a insistência na “nobreza” do caráter dos protagonistas, e o elogio de seus “elevados” propósitos – valorizados constantemente com a “utopia” – funcionariam como uma carta de permissão para qualquer movimento, intervenção, ou atividade, necessários para a concretização dos projetos “sagrados”. Então, qualquer impedimento aos “elevados” propósitos dos “nobres heróis sacro-santos” significaria injustiça, violência, fazendo deles, conseqüentemente, vítimas – eles se tornam vítimas em qualquer situação de contrariedade, mesmo quando decidem pelo combate armado, estando, assim, em condição de igualdade com o “inimigo”, isto é, tendo nas mãos o poder de matar.

A “vitimização” dos protagonistas de “Batismo de Sangue”, contudo, não é apenas produto da direção do filme, ela já é um traço do comportamento das pessoas concretas que são reproduzidas na ficção. Ela pode ser diagnosticada a partir das próprias palavras de Frei Betto - a pessoa concreta que é transformada em um dos personagens centrais do filme – um exemplo efetivo de “autovitimização”. O frade dominicano ainda se sente oprimido por um “Governo” que impede e obstaculiza o acesso aos documentos do período de regência militar, ainda que este mesmo “Governo”, em suas três esferas administrativas – Federal, Estadual e Municipal – financie, patrocine um filme que retrata fielmente, segundo ele mesmo, um fato histórico e a sua própria vida. Frei Betto ainda acredita estar sendo censurado, constrangido, reprimido mesmo quando “Batismo de Sangue” conta com o apoio da maior empresa de mídia e comunicação do país (Cf. o apoio da Globo na lista abaixo). O dominicano sente-se perseguido, injustiçado, ainda que receba publicamente o status de “intelectual”, e com ele prestígio, autoridade e influência - não apenas do grande público, mas também de seus pares e, inclusive, do mais alto posto do Poder, enquanto conselheiro pessoal do ex-presidente da República.      

A “autovitimização” reconforta, é uma espécie de apaziguamento do espírito – ela aponta um “carrasco”, e conseqüentemente fornece para indivíduo um “culpado” por tudo aquilo que lhe acontece de mal, isto é, um responsável por todos os infortúnios de sua vida, o isentando, automaticamente, de qualquer imputação pública ou da autoconsciência. O “culpado”, então, passa a ser um eterno endividado: nada que faça para se redimir, e nem mesmo uma mudança total das circunstâncias que poderiam corroborar a sua responsabilidade, será suficiente para isentá-lo da “dívida”. Por isso o “carrasco” é sempre “cobrado”, e por causa do débito insolúvel deve ser acusado, quando não agredido ou insultado. A “vítima”, por sua vez, tem um “garantidor” eterno para seus infortúnios, seus fracassos, para as contrariedades inerentes à vida, seus pecados íntimos, para seus crimes – ela não se responsabiliza pelo cumprimento de qualquer encargo, pois tem quem o pague. Tudo aquilo que a contraria, que obstaculiza seus desejos, ambições, a sua vontade, é de total responsabilidade do “carrasco”: se a “vítima” não obtém ganhos materiais, financeiros, se não é correspondida em seus afetos, se não tem prestígio e reputação, reconhecimento intelectual, o “culpado” deve pagar.

Acontece que a “autovitimização” alimenta no indivíduo o ressentimento, uma profunda mágoa com relação ao “culpado” precariamente eleito, mas eternamente odiado. Sentimentos que podem se alastrar para o domínio cultural, criando um ambiente onde boa parte das pessoas se sente “vítima”, se sente injustiçada, perseguida - por isso a grande maioria julga que deveria ser ressarcida e indenizada pelos “culpados”, embora considere toda e qualquer forma de compensação insuficiente para mitigar seus suplícios eternos. Neste ambiente os ídolos, as personalidades de referência, também são pessoas perseguidas, discriminadas, são verdadeiros mártires, e por isso mesmo recebem o status de “heróis da nação”, porque sofreram mais que a média geral. Transformam-se em heróis por causa do seu martírio, e não por suas ações, ímpeto e vigor. De fato existem “vítimas” e “carrascos” - porém, para “heróis”, ou “mártires”, construídos a partir desta relação, acontece algo estranho, que se expressa na confusão de Frei Betto: é que estes pretensos heróis se sentem “vítimas” ainda que tenham recebido status de autoridade, e com ele prestígio e respeito social; são vítimas mesmo tendo alcançado as altas esferas do poder político e econômico, recebendo com isso apoio e financiamento públicos e do setor privado. Com a força e influência política, social, poderio financeiro, os “heróis da vitimização” continuam se sentindo fragilizados, reprimidos e insultados, mesmo que seus poderes sejam infinitamente superiores ao do seu eterno “carrasco”, do “culpado”. Mas qual a causa da “autovitimização”? Um sentimento profundo de insegurança diante dos infortúnios inerentes à própria vida? Medo de “cara feia” ou não aceitação dos perigos da disputa ou do combate? Ou estratégia para a manutenção do poder e do prestígio social de quem passou a fazer parte do próprio “Governo”, estimulando o sentimento de compaixão inerente ao ser humano? Bom, levantar estas hipóteses requer cuidado, porque em um ambiente de “autovitimização” elas poderiam ser consideradas uma inconveniência, quando não um insulto.

 

Batismo de Sangue.

Direção e Produção de Helvécio Ratton.

  . Downtown filmes.

- Apoio e lançamento da Globo Filmes.

  . Ancine – Agência Nacional de Cinema.

- Filme produzido e financiado com o apoio da Ancine.

- Projeto apoiado com recursos do Prêmio Adicional de Renda.

  . Filme contemplado pelo Programa Petrobrás Cultural.

. Lei do Audiovisual Ancine / Lei de Incentivo a Cultura Ancine.

  . Patrocínio:

- BNDES – Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social - Ação Cultural.

- Eletrobrás.

- Furnas.

- MBR – Minerações Brasileiras Reunidas – Uma Empresa Caemi.

- Usiminas.

- Gasmig.

- Cemig.

- Governo de Minas – Cultura / “Filmes em Minas”.

- RM Sistemas.

  - Realizado com os benefícios da Lei Municipal de Incentivo a Cultura de Belo Horizonte: Cultura; Cultura – Fundação Municipal; Prefeitura BH.

  . Apoio Cultural:

- Universidade FUMEC.

- INFRAERO – Aeroportos Brasileiros.

- DotTech.

  . Produtores Associados:

- Quanta.

- TeleImage.

  . Apresentação:

- Petrobrás.

- V & M do Brasil.

  . Produção:

- Quimera.

  (*) Cf. Créditos iniciais do filme e créditos finais do “Making of”, sendo que os deste último estão no tempo 22:12.

 


 

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Zinne Cult - o Fanzine Cultural

O Esvaziamento Social Brasileiro

(1) Thiago Ladeira

 

O atual estágio da economia brasileira não reconforta tampouco lança esperança para aquilo que o futuro nos reserva. A economia vai mal, mas o povo vai bem. Parafrasear o ex-ditador Médici é quase inevitável num cenário absurdo de mais de 80% de aprovação do ex-presidente Lula, que encerrou há poucos dias seu segundo mandato. O otimismo trágico emerge quando nada pode piorar. Considerada a mais bem sucedida manobra da direita brasileira para revigorar e dar continuidade a um modelo econômico que já se encontrava destruído por seus próprios germes, a eleição de Lula permitiu a manutenção do famigerado “Tripé Macroeconômico” (afinal, qual seria a melhor forma de acalmar o descontentamento com o governo “neoliberal” de FHC que não a emulação de um governo de esquerda na figura de seu mais carismático representante?) que surgiu no início de 1999 e moribunda até o presente momento. Comprometido com 1 – o regime de metas de inflação, 2 – com a responsabilidade fiscal - que implica a obtenção de megasuperávits primários (a poupança que o governo forma para pagar juros a banqueiros e outros rentistas) e 3 – com a liberdade cambial, não configura tarefa árdua demonstrar que Lula transformou nosso país num lugar ainda pior para se viver do que o era há oito anos (proeza também alcançada por FHC e Collor).

Em primeiro lugar, todos os componentes do modelo se retroalimentam de forma viciosa, transformando a repartição da renda no Brasil num jogo de soma zero (a riqueza não cresce em termos reais e é sistematicamente transferida para setores dominantes da sociedade, aquilo que um ganha, o outro perde). Vejamos como isto ocorre:

O sistema de metas de inflação obriga que o Banco Central determine, normativamente, qual será o intervalo no qual o IPCA (Índice de Preços ao Consumidor – Amplo) poderá flutuar dentro de um determinado ano. Apoiada fortemente na doutrina neoliberal, a diretoria do BC acredita que honrar a meta inflacionária é condição imprescindível para a estabilidade dos mercados via acomodação de expectativas dos agentes econômicos. Portanto, para tornar crível o centro da meta, o BC utiliza a ferramenta de mais fácil manejo, mas também a menos adequada: a taxa de juros.

É sabido por todos nós que a taxa de juros desencoraja as compras a prazo, encarece o consumo presente e consegue, a contento, conter a demanda e mitigar a alta de preços. No entanto, a alta das taxas de juros tem como contrapartida a elevação do custo da dívida pública, pois esta taxa determina, grosso modo, a remuneração que os detentores de títulos da dívida pública vão receber no devido vencimento dos títulos; e como este custo é uma despesa pública, vai impactar lá, no compromisso do governo com a responsabilidade fiscal.

Da mesma forma que o governo não gosta de incomodar o sono dos grandes capitalistas com o dragão da inflação, ele também não gosta de ser questionado quanto a sua honestidade na hora de honrar suas dívidas, principalmente as financeiras. Neste sentido, para chancelar sua fama de bom pagador, o governo central também se compromete com uma meta de superávit primário para garantir recursos suficientes para manter uma relação estável entre a dívida pública líquida (despesa) e a arrecadação tributária (receita) – (como se nós mantivéssemos, sempre, nossas dívidas sobre controle, para tranqüilidade de nossos credores). Agora analise: um surto inflacionário, que pode ter início em eventos estocásticos, como uma geada no sul – que quebra a safra de arroz e eleva seu preço no mercado, força o banco central a subir a taxa de juros que, por sua vez eleva o custo da dívida pública e reduz a margem de manobra do governo central para alocar recursos em outros setores (políticas compensatórias, investimento em educação, saúde, segurança pública, etc.) e este custo se converte, imediatamente, em renda para quem detém títulos da dívida pública (grandes investidores, parcela mais rica da população, em sua maioria), enriquece ainda mais os rentistas e limita a capacidade de investimento social do governo – retroalimentação viciosa.

Ademais, e para os propósitos deste texto, não explicitarei a relação entre taxa de câmbio (outro componente do “Tripé”) e a piora dos indicadores macroeconômicos nacionais, assunto que poderá ser retomado no futuro, para não ficar mais exaustivo do que já é.

Isto posto, podemos passar para uma análise quantitativa, utilizando dados constantes do Sistema de Contas Nacionais, SCN do período 2004-2008, disponível no site www.ibge.gov.br, para avaliar em que magnitude os rendimentos do trabalho perderam participação na renda nacional em favor das demais classes de remuneração – rendas de capital e da administração pública, evidenciando o recrudescimento do conflito distributivo, da pauperização em massa das classes trabalhadoras e do favorecimento do capital num país marcado pela ausência dele. Observe a tabela a seguir:

Tabela 1 – Produção e Renda do Trabalho no Brasil



2004


PIB-renda nacional (A)

Massa salarial (B)

Participação salarial

na renda nacional (B/A)

1 941 498 milhões

763 237 milhões

0,3931



2008


PIB-renda nacional (A)

Massa salarial (B)

Participação salarial

na renda nacional (B/A)

3 031 864 milhões

1 267 673 milhões

0,4181


Dos dados acima, extrai-se a fundamental informação acerca da evolução da distribuição funcional da renda no Brasil. Apesar do crescimento infinitesimal da ordem de 0,025 ou 2,5% (0,4181 – 0,3931) no qüinqüênio 2004-2008, este crescimento é prontamente transformado em decrescimentoacréscimo de 9,12%), segundo dados do IBGE, ou seja, ainda que tenha havido um crescimento de 2,5% da participação da massa salarial na geração de riqueza, este crescimento se transforma em DÉFICIT SALARIAL RELATIVO, repetindo, DÉFICIT SALARIAL RELATIVO da ordem de 6,62% (crescimento da PEA menos crescimento da massa salarial, ou 9,12 – 6,62). quando se considera a evolução da população que entra todos os anos no mercado de trabalho: a população economicamente ativa – PEA no Brasil era da ordem de 92.659.000 de pessoas em 2004, saltando para 101.110.000 em 2008 (

Portanto, não há outro Brasil, o que existe é a mesma estrutura distributiva altamente concentradora, o mesmo sistema tributário regressivo e as mesmas políticas públicas de caráter assistencial-salvacionista nos moldes keynesianos.

 


(1) Economista, contador (de histórias), consumidor voraz do cigarro de palha “Souza Paiol – Série Ouro” e figurinha fácil no bar do Saleh.

 

 

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Anos 90 e a Degradação da Música Radiofônica no Brasil - parte I

Francisco Fernandes Ladeira [1]

Escrever um artigo sobre música pode ser tão polêmico quanto falar sobre política ou religião. Evidentemente cada um tem suas preferências, seus cantores e bandas preferidos. Isso é fato, e, segundo o senso comum, não cabe a ninguém opinar a respeito do gosto alheio.

Um indivíduo pode não gostar de samba, mas não tem como negar a importância desse gênero para a construção da cultura brasileira e para a afirmação do elemento afro-descendente em nossa sociedade. Assim como você pode não admirar o rock n’roll, mas deve ter em mente que não há como entender os movimentos de contestação juvenil em nível global a partir dos anos 1960 sem remeter ao estilo musical consagrado por Elvis Presley, The Beatles e tantos outros. “Gosto musical não se discute”, diriam alguns. Será?

A máxima “gosto não de discute” não se mostra assim tão verdadeira quando tratamos de determinados “estilos musicais” difundidos pelos meios de comunicação de massa. A partir do momento em que o “gosto” das pessoas em geral passa a ser manipulado, deve ser questionado.

Assim, quando a discussão foge do âmbito estritamente sonoro, precisamos buscar em fatores extra-musicais (situação política, social, econômica) as razões para entender porque determinadas tendências prevalecem em determinadas épocas. É muito ingênuo acreditar que as canções que ocupam os primeiros lugares nas paradas de sucesso sejam necessariamente o que a população em geral queira ouvir.

Em se tratando da música feita no Brasil, é inegável o valor artístico e cultural de nossas composições. Poucos povos podem se orgulhar da variedade de ritmos, da riqueza melódica e da alta qualidade de suas produções musicais. Estes e outros motivos fazem da Música Popular Brasileira (rótulo genérico, porém ainda válido de alguma forma) umas das mais respeitadas e admiradas do planeta. Não se trata de chauvinismo, mas poucas nações têm entre seus maiores músicos nomes como Tom Jobim, Chico Buarque, Noel Rosa, Luiz Gonzaga, Baden Powell e Heitor Villa-Lobos (aqui também se produz música erudita). Enfim, a lista é imensa e não caberia aqui.

Pois bem, daí alguém pode se perguntar: com tanta qualidade musical, por que ao sintonizar a maioria de nossas rádios nos deparamos com músicas de “qualidade um tanto quanto duvidosa”? Como pode, no mesmo país que produziu grandes nomes da música mundial, as emissoras de rádio em geral insistirem em privilegiar axé Bahia, sertanejo universitário (nunca entendi esse termo) ou funk carioca em detrimento de músicas de qualidade?

Qualquer pessoa com o mínimo bom senso e erudição sabe que impera no mainstream musical brasileiro, salvo raríssimas exceções, músicas de péssimo nível.                    Para começar a entender o porquê de tanta alienação sonora, devemos buscar as origens da decadência musical no Brasil.

Tal declínio nos remete à década de 1990. Desde então, as paradas de sucesso predominantes nas emissoras de rádio e televisão são ditadas por “ciclos musicais”: “ciclo sertanejo”, “ciclo do pagode”, “ciclo do axé”, “ciclo do forró”, “ciclo do funk carioca”...

A receita é demasiadamente simples: a população é bombardeada incessantemente por um determinado “estilo” musical, grupos surgem por atacado (quem não se lembra do boom de grupos de pagode na segunda metade da década de 90?), ouve-se um único tipo de música até sua exaustão, e depois, quando todos estão saturados, partimos para outro estilo musical (o anterior é peremptoriamente esquecido), e seguem-se as mesmas etapas desse processo. E por aí vai...

Mas por que tal declínio surge justamente nos anos 1990? Bom, alguns “conservadores” e “puristas” de plantão vão afirmar que a decadência musical começou na década de 1980, com o chamado “rock nacional”, “quando a música ‘legitimamente brasileira’ foi substituída nas rádios por um ritmo alhures”. O rock é “aquela maldita música americana que ‘rouba’ o espaço da música brasileira nas rádios” diria o mais imediatista dos “caretas”.  

Não creio que o rock nacional dos anos 1980 represente uma página vergonhosa na história da música brasileira. Evidentemente muita coisa ruim foi produzida na época, mas não há como negar que alguns nomes do período apresentaram obras memoráveis.

Bom, conforme mencionei anteriormente, não pretendo colocar aqui preferências musicais, mas os leitores do Zinnecult hão de convir que a partir dos anos 1990 uma série de “ídolos” foram “produzidos” no Brasil  menos por suas qualidades do que pela imposição midiática. Grupos de pagode e axé music venderam milhões de cópias. “Músicas descartáveis” foram produzidas em série.

             

Anos 90 e a Degradação da Música Radiofônica no Brasil - parte II

É difícil encontrar as razões dessa decadência musical, mas podemos listar pelo menos quatro causas básicas. 1) A grande concessão radiofônica durante o governo Sarney, responsável pela difusão em larga escala do “jabá”. 2) O acesso aos meios de comunicação por parte de segmentos sociais com baixos índices de instrução. 3) A grande pressão de grupos conservadores pela volta da “música brasileira” às rádios após a “grande invasão” das FM’s pelo Rock. 4) O “ministério da vingança”, instituído pelo governo Collor contra os artistas que apoiaram Lula no segundo turno da eleição presidencial de 1989.

         Vamos ao primeiro argumento. Em 1987 José Sarney enviou ao Congresso uma emenda constitucional que apresentava a proposta de postergar seu governo, que terminaria no ano seguinte, por mais um ano. Visando o apoio do legislativo para sua emenda, o então presidente da República fez uma série de concessões de rádio para deputados federais. Surgia assim um grande número de novas emissoras de rádio por todo o país, e o ex-presidente maranhense atingira seus objetivos.

         Se Sarney saiu vitorioso no Congresso Federal, a cultura brasileira sofreu um grande baque. Como esses novos meios de comunicação não estavam comprometidos com a qualidade de sua programação e sim com a possibilidade de lucrar cada vez mais, enraizou-se na mídia brasileira a prática do “jabá”. Ou seja, a execução de uma determinada música em uma emissora de rádio mediante ao pagamento de certa quantia em dinheiro. Tudo isso veio a ensejar o surgimento de “ídolos fabricados”. “Da noite pro dia”, novos cantores e grupos musicais apareciam na mídia já como detentores de discos de platina e ouro. 

Diante dessa realidade, cabe aqui uma pergunta capciosa: “determinada música é a mais tocada na rádio por que o público gosta, ou o público gosta por que é a mais tocada”? Sem menosprezar a capacidade de escolha de cada indivíduo, acredito no poder de coerção da mídia. Muitas vezes uma pessoa é levada a aderir ao gosto da maioria como forma de se inserir em determinado grupo social.

         Por outro lado alguém poderia falar que uma música não é mantida no topo das paradas de sucesso sem o apoio popular. Pois bem, é exatamente aí que enquadro a segunda causa para a decadência da música brasileira. A maior parte da população brasileira não tem boa instrução; daí surge um grave problema: os meios de comunicação de massa se expandiram no país antes que a educação de qualidade se universalizasse nas classes menos abastadas. Adorno, eminente filósofo alemão, já dizia que o efeito colateral da vertiginosa expansão dos meios de comunicação de massa seria o nivelamento cultural por baixo.

 Evidentemente não estou sendo contrário ao acesso das classes menos favorecidas aos veículos de comunicação, mas seria mais plausível primeiramente educar esses segmentos antes de os “expor” aos mecanismos da cultura de massa. Uma população marcada por baixos índices de escolaridade não é capaz de refletir e questionar, e assim acaba aceitando tudo o que é imposto pela mídia. 

Já o terceiro argumento, a grande pressão de grupos conservadores pela volta da “música brasileira” às rádios após a “grande invasão” das FM’s pelo Rock, já foi debatido anteriormente. Contudo, não foram somente os setores conservadores que insurgiram contra o rock. Setores ditos “progressistas” criticavam veementemente a origem elitista dos componentes das bandas de rock nacional. Sendo assim, era preciso ceder espaço para as classes mais baixas, representadas por pagodeiros, axezeiros, funkeiros, e outros “eiros” mais.

Em entrevista à Bruna Lombardi, o cantor Ed Motta dizia ser “sociologicamente interessante” o declínio do rock e a ascensão de gêneros como o pagode, pois assim novos estratos sociais passariam a se expressar nos meios de comunicação.

Não faz sentido fazer da música brasileira uma espécie de “luta de classes”. Ed Motta foi totalmente infeliz em sua declaração. Ao contrário do que pensa o sobrinho de Tim Maia, os grupos citados não “representam” a população pobre, mas sim a imagem passiva e alienada que a elite brasileira espera das classes mais baixas.

Não é por ter uma origem humilde que um músico deve apresentar composições de baixa qualidade. Pelo contrário, há inúmeros casos de músicos nascidos e criados em áreas pobres que possuem obras do mais alto nível. Cartola, por exemplo, é sem dúvida um dos maiores nomes da MPB.

No entanto, alguns podem falar que o músico carioca pertence à outra época, que sua trajetória não pode ser aplicada ao contexto contemporâneo. Devemos assim nos apegar a nomes atuais.

Pois bem, para citar um exemplo hodierno temos Mano Brown e os Racionais MC’s.

Não gosto de rap, mas é inegável a crítica social contundente apresentada nas composições dos Racionais.

Os vários MC’s do funk carioca e Mano Brown possuem origens semelhantes, a diferença é que os primeiros representam a periferia passiva e alienada, tal como a elite econômica espera; e o segundo mostra a periferia insurgente, que não se deixa corromper ou se influenciar pela ostentação elitista (“seu carro importado não me seduz, nem a sua p... de olhos azuis” dizem os Racionais) e que denuncia as mazelas do sistema capitalista (“em São Paulo, Deus é uma nota de 100”). 

Finalmente vamos ao quarto e mais polêmico argumento. As eleições de 1989 foram uma das mais disputadas e emocionantes da história do Brasil. Depois de duas décadas de Regime Militar (1964-1985), os brasileiros enfim poderiam escolher seu presidente. Dessa forma, as mais diversas expressões ideológicas se manifestaram nesse pleito (ao todo foram 22 candidatos). Como se sabe, Fernando Collor de Mello (Partido da Reconstrução Nacional) e o atual presidente, Luiz Inácio Lula da Silva (Partido dos Trabalhadores), foram para o Segundo Turno.

Bom, mas o que isso tem a ver com o tema deste texto? Tudo. Devido ao seu caráter histórico, o pleito de 1989 movimentou amplos setores da sociedade brasileira, e com a classe artística não foi diferente. Boa parte dos músicos se posicionou a favor da candidatura petista (quem não se lembra do histórico jingle “Lula lá, brilha uma estrela, Lula lá, com sinceridade...?”, cantado voluntariamente por nomes como Chico Buarque, Djavan e Gilberto Gil). A favor da candidatura Collor de Mello estavam (principalmente) as duplas sertanejas e os músicos da Lambada, antecessor da atual axé music.

Em uma disputa acirrada, marcada por inúmeras polêmicas, Collor vence Lula e conforme anunciavam jornais da época, prepararia um “ministério da vingança” contra aqueles artistas que apoiaram seu rival.

Já os sertanejos, fiéis aliados do “caçador de marajás”, viveram tempos de glória durante a Era Collor.  Dominaram as principais paradas de sucesso e venderam milhões de discos. Coincidência? Não por acaso, Collor, que assumiu em março de 1990, em seu primeiro ano de mandato transformou o Ministério da Cultura em Secretaria da Cultura (o que veio a ensejar grandes restrições orçamentárias para as políticas culturais no Brasil). A partir de então os grandes nomes da MPB apresentaram um paulatino declínio de execução em rádios, e os músicos fabricados para alienar a população começariam a viver seus melhores momentos.

 Para concluir este texto, devo fazer algumas elucidações. Não pretendo apresentar este ou aquele governo como responsável direto pela decadência da música brasileira, tampouco apresentar os anos 1990 como a “década perdida” da música. Importantes e inovadores nomes do cenário musical, como Chico Science, apareceram no período. Essa crise de criatividade e produtividade musical apresentada no Brasil também foi sentida, em maior ou menor grau, em várias partes do mundo.

Também é importante ressaltar que eu não quis apresentar uma visão saudosista da música brasileira, sou a favor da renovação do cenário musical, desde que prevaleça o bom senso. Obviamente existem milhares de cantores e bandas espalhados pelo país que produzem trabalhos excelentes, mas infelizmente não têm seu espaço na mídia nem são conhecidos do grande público. Não apregoo que somente um estilo deva estar em evidência. Seria interessante que a população pudesse escolher através de uma grande gama de opções musicais.

Muitos podem argumentar que o advento da Internet tornou bem mais fácil o acesso a qualquer tipo de música. Entretanto no Brasil a grande maioria da população ainda tem contato com as novidades musicais somente através da grande mídia. Uma minoria privilegiada (econômica ou intelectual) possui realmente autonomia para definir seus gostos, enquanto a esmagadora maioria da população está a mercê do que é ditado pela moda. Enquanto os ricos (e as pessoas com acesso à boa informação) podem ouvir música de qualidade, os pobres devem se contentar com “Rebolation” e similares. E infelizmente essa realidade está longe de ser revertida. Parece que o passar dos anos deixa as pessoas mais alienadas e vulneráveis a padronizações. Como diria Zé Ramalho: “vida de gado, povo marcado ê, povo feliz...”.

 


[1] Especialista em: “Brasil, Estado e Sociedade” pela UFJF.

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